Publicidade Venus Creations

 

 

Versão Original
(Abre numa nova janela)

English Version

Version Française

 

OPINIÃO

DOMINGO 01 DE DEZEMBRO DE 2019  

Que pontapé, Joacine

Fernanda Câncio

Parecia ter tudo para causar ondas, das boas, das que fazem pensar: a primeira negra cabeça de lista eleita ostentando o seu ativismo antirracista e uma deficiência de fala. Era uma bandeira, claro. Mas ainda nem passaram dois meses e cabe perguntar de quê.

De Joacine Katar-Moreira soube pela primeira vez em janeiro, quando a vi, em vídeo, discursar a propósito do episódio de violência policial no bairro da Jamaica. Gostei do discurso e fiz uma nota mental: gostaria de a entrevistar. Essa entrevista acabou por acontecer no DN, meses depois, pela Maria João Caetano. Foi nela que descobri, com surpresa, que Joacine é gaga: no discurso do vídeo não havia sombra de hesitação. Era uma entrevista "de vida", e achei interessante a história de vida de Joacine, então já anunciada como a cabeça de lista do Livre por Lisboa.

Pareceu-me uma ótima ideia: há muito que me era escandalosa a quase total ausência de afrodescendentes no parlamento. Quando ao anúncio da sua candidatura se seguiu o de que também Beatriz Gomes Dias, pelo BE, e Romualda Fernandes, pelo PS, estavam em lugares elegíveis, achei que finalmente se tinha virado uma página. Continuo a achar.

Reparei que Joacine, no Twitter, fez um remoque sobre isso. Algo do tipo "foi preciso eu aparecer para os outros partidos se lembrarem de pôr negras em lugar elegível". Estranhei o tom - não deveria ser antes de contentamento? - mas descontei: de facto é muito tarde na democracia portuguesa para os partidos, que tiveram a consciência, há 13 anos, da discriminação em relação às mulheres na representação política, instituindo quotas para a combater, se darem conta do padrão cromático esmagador do parlamento. Joacine tinha motivos para estar zangada, e eu não tinha motivos para achar que aquele tom prenunciava alguma coisa.

Na noite das eleições, festejei a eleição de Joacine com comoção, como tinha festejado comovida a posse de Francisca Van Dunem, a primeira ministra afrodescendente: foram para mim dois momentos importantes na democracia portuguesa.

Não me chocou, depois, a pessoalização da campanha do Livre em torno dela: era uma imagem forte, que me parecia congregar uma série de ideias boas - e a confiança que tenho em algumas pessoas do Livre, a começar pelo meu amigo Rui Tavares, fazia-me crer na justeza da escolha. Gostei do vídeo e da canção dos Fado Bicha, achei graça à letra e ao "pontapé no estaminé". E fui-me convencendo de que, na conjuntura de uma maioria de esquerda confortável, havia condições para que se libertassem votos para o Livre. Assim sucedeu: o partido teve mais 45% de votos que em 2015, 78% no Porto e 55% em Lisboa. Na noite das eleições, festejei a eleição de Joacine com comoção, como tinha festejado comovida a posse de Francisca Van Dunem, a primeira ministra afrodescendente: foram para mim dois momentos importantes na democracia portuguesa.

Faltaria à verdade se não dissesse que ainda assim fui anotando atitudes em Joacine que não percebi ou que me caíram mal. Nada porém que se assemelhasse à sucessão de revelações da última semana, quando a propósito da sua abstenção no voto sobre os colonatos na Palestina se percebeu que ela e a direção do partido não se falam. Só isso aliás justifica o comunicado que o Livre fez, exprimindo perplexidade com essa abstenção: é preciso que as relações estivessem em ponto de rebuçado para isso suceder, já que o partido nada tem a ganhar e tudo a perder em assumir a situação publicamente.

Mas seja qual for a opinião que se tenha sobre o comunicado do Livre, sua oportunidade e consequências lógicas, o de Joacine é um ponto de viragem para quem como eu a seguia com simpatia. Mostra-nos alguém que diz assumir "total responsabilidade" pela sua abstenção para no mesmo parágrafo responsabilizar por ela a "falta de comunicação com a atual direção" (sublinhado em atual); que poeticamente afirma ter votado "contra a direção de si mesma", numa declaração de violentação íntima, para a seguir apelidar o voto de retórico, sem consequências na vida dos palestinianos (ou seja, tanto fazia?). E que termina dizendo que a sua eleição sobreleva em muito o partido, antecâmara para as declarações do dia seguinte, quando clama ter sido "eleita sozinha" e acusa a direção de na noite das eleições se ter atrevido a festejar a subvenção (só quem não se lembre do drama das dívidas do Livre após as legislativas de 2015 se espantará com isso) antes de saber se ela, Joacine, tinha conseguido entrar no parlamento.

Já chegaria como retrato, mas a deputada achou que não; acusou a seguir a direção de "golpe" e de a querer "descartar", sem no entanto explicar por que motivo e como: sabe bem que não pode ser removida do parlamento a não ser que queira sair. A acusação, porém, casa com a narrativa que se começou a criar entre os seus apoiantes: de que é vítima de uma perseguição, quer mediática quer no próprio partido, por motivos raciais - racistas, portanto.

Essa narrativa foi finalmente assumida pela própria no perfil publicado esta sexta-feira pelo Expresso, ao citar a preocupação da avó guineense com a sua eleição: "Tu aí sozinha no meio desses brancos todos. Eles não se traem uns aos outros". Não há dúvidas sobre o que isto quer dizer, já que traições de "brancos" uns aos outros é, como se sabe, o pão de cada dia: perante a negra que ela é, os brancos unem-se. É então essa a razão do "golpe". Ser negra.

É verdade que Portugal é um país racista, muito racista. Esse racismo é estrutural - fomos criados e educados nele, todos nós, e é bom que nos consciencializemos disso porque é a única forma de o combatermos -- mas também é individual. E Joacine, pela sua elevada exposição, tem sido vítima de virulentos ataques racistas - da reação à bandeira guineense na celebração da sua eleição aos insultos horríveis que se encontram nas redes sociais contra ela, passando pelo delírio odiento de quem a acusa de fingir ser gaga para ganhar simpatia. Isso é uma realidade indesmentível e deve envergonhar-nos a todos. Não pode é ser invocada como um impedimento absoluto à crítica das suas ações, sob pena de se estar a apelar a um paternalismo e condescendência que são apenas mais uma das faces do racismo.

 

Clique aqui para ler mais notícias

Contactos - Política de Privacidade - Termos de Utilização
© Venus Creations. Todos os Direitos Reservados.