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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 15 DE NOVEMBRO DE 2019  

O interior não precisa de políticos

Anselmo Crespo

Em 2004, Pedro Santana Lopes foi alvo de chacota política por ter decidido deslocalizar algumas secretarias de Estado para outras regiões do país, que não Lisboa. Jorge Sampaio, à época Presidente da República, nem deu tempo para que se abrissem os caixotes todos. Fez cair o Governo de Santana, convocou eleições e... as secretarias de Estado lá voltaram todas para Lisboa outra vez.

Ironias da política, o mesmo Partido Socialista que, há 15 anos, criticou duramente o governo do PSD/CDS faz agora tábua rasa de todos os argumentos que usou e decide seguir as pisadas de Santana. Ignoremos, por uns instantes, a incoerência e concentremo-nos na substância da medida.

Depo s da secretaria de Estado da valorização do interior, que já estava descentralizada, há dois novos secretários de Estado que vão migrar: um para a Guarda e outra para Bragança. O secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, por exemplo, vai continuar em Castelo Branco, instalado no edifício do antigo Governo Civil da cidade - sempre se dá alguma utilidade àquilo -, terá cinco elementos em permanência - uma multidão - e fará "audiências, reuniões e eventos". É o ovo de Colombo. Como é que nunca ninguém se lembrou disto?

A medida tem tanto de demagógica como de patética. Sobretudo quando estamos no século XXI e falamos do mesmo governo que definiu como prioridade política a transição digital. No fundo, é o mesmo que dizer que não há reunião nem audiência tão eficaz como aquelas que são feitas cara a cara. Que, porventura, as teleconferências, as chamadas telefónicas e outras tecnologias da comunicação nunca são tão boas como um encontro no café da praça central da cidade.

Mas é, sobretudo, partir do princípio que o problema de quem vive em Castelo Branco, na Covilhã, na Guarda, em Bragança ou em Vila Real é estar longe de quem os governa. Que, se se cruzarem todos na rua, ou se não tiverem que vir a Lisboa para reunir com o secretário de Estado, os problemas se resolvem mais rapidamente. É um engano. E é, sobretudo, atirar areia para os olhos das pessoas.

Ao contrário do que o Governo quer fazer parecer, o interior do país não precisa que os governantes se mudem para lá. Precisa de gente que lá queira viver. Pessoas que encontrem as mesmas oportunidades de emprego que existem no litoral, que tenham o mesmo acesso à saúde, à educação, à justiça e aos serviços públicos.

O interior precisa que lhe seja devolvida a economia que sucessivos governos permitiram que fosse destruída. Precisa de investimento, de empresas e de começar a ser visto como uma oportunidade e não como um fardo ou uma espécie de parente pobre a quem se vão atirando umas migalhas em forma de benefício fiscal.

 

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