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OPINIÃO

SEXTA FEIRA DIA 6 DE SETEMBRO DE 2019  

O primeiro outono de Ursula

Henrique Burnay

A escolha de Ursula von der Leyen foi suficientemente surpreendente para pouco mais se ter dito sobre a presidente designada da Comisão Europeia além do facto, evidente, de ser mulher, alemã, ex-ministra da defesa e democrata-cristã. O que pensava ou não sobre os temas, nos primeiros dias, ficou por descobrir, até porque havia coisas mais urgentes. Depois da escolha pelo Conselho, colocava-se a questão de saber se seria capaz de conquistar um número suficiente de votos liberais e socialistas no Parlamento Europeu, para ser aprovada. Conseguiu, tendo para isso feito uma quantidade de declarações políticas que andaram entre o anódino e o amor à agenda mais ambientalista. Falta agora o resto.

Até ao final de Outubro (mais precisamente 1 de Novembro, o dia imediatamente a seguir ao Brexit), a nova presidente vai ter de ver a sua equipa aprovada por maioria no Parlamento Europeu. Em finais de Julho, essa parecia uma tarefa difícil.

Desta vez, era evidente que o Parlamento ia querer mostrar a sua objecção profunda a Salvini, Kaczynski e Orban, e à sua influência na escolha de Ursula. Fossem quem fossem os comissários propostos por Itália, Polónia e Hungria, era de esperar problemas e uma ameaça de rejeição à primeira volta. E ia querer mostrar que o PPE tem força para impedir outra solução, mas não tem votos para impor o que quer. Só que a realidade, e o que Ursula fez entretanto, parecem estar a simplificar-lhe a vida. O que prova, pelo menos, inteligência e sensibilidade política.

Para começar, prometeu que teria uma comissão paritária, e falta pouco para consegui-la (há 13 homens escolhidos e 12 mulheres, sendo que Itália ainda não disse nada e a Roménia deu um de cada). Além disso, fez Martin Selmayr demitir-se de um dia para o outro. O Parlamento nem teve tempo de o exigir.

Entretanto, e no que toca aos comissários, a mudança de governo em Itália torna qualquer candidato que não seja proposto por Salvini (desde que saiba ler e escrever) aceitável. Com os polacos, Ursula foi inteligente: ofereceu à Polónia uma pasta que não servia ao candidato inicialmente indicado pelo governo e que tresandava a sarilhos. Varsóvia mudou de nome, para um que não levanta problemas, e em troca ganhou a agricultura. Sobra Orban, que se não alterar o nome indicado, vai ficar isolado. O que parece não ser um problema, na verdade ainda é. Não há Comissão se algum Estado Membro não indicar comissário. Ou seja, se o Parlamento pedir que o candidato húngaro seja trocado como condição para aprovar a Comissão, ainda podem haver sarilhos. É aí que se vai medir a força e a sensibilidade de Ursula. Ou a política e a diplomacia.

A política europeia é um jogo de compromissos, muito mais que maiorias, que precisa de liderança para se impor e de descrição para não ofender os governos. Até agora, Ursula (quem tem a sorte de, tendo um apelido difícil de reter, ser conhecida pelo intímo nome próprio) tem conseguido fazê-lo. Veremos como corre Setembro e depois Outubro.

 

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