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OPINIÃO

SÁBADO 03 DE AGOSTO DE 2019  

A Ecologia e os Objectivos do Desenvolvimento sustentável

Maria Amélia Martins-Loução

Durante uma semana, cinco centenas de investigadores de 43 países e cinco continentes, estiveram reunidos na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa para mostrar e discutir como a ecologia, enquanto ciência transversal, pode contribuir para os objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS). Para além de apresentar e discutir os mais recentes resultados, vieram sobretudo mostrar como a abordagem multidisciplinar contribui para colmatar os actuais desafios sociais. O programa foi preparado para providenciar a oportunidade de amplas discussões, com momentos de convívio, para além de ter estimulado a presença e participação activa de um número considerável de parceiros e instituições públicas e privadas. Como a ausência de uma ligação directa à sociedade reduzia o evento à comunidade académica e o afastava dos motivos por detrás da sua génese, a organização decidiu abrir o primeiro dia ao público em geral. Esta decisão, sem precedentes em congressos anteriores, permitiu alargar a discussão entre dois debates, um dedicado à geopolítica das alterações ambientais e outro, sobre o papel que a Ecologia tem vindo a desempenhar para o sucesso dos ODSs.

O Congresso Europeu de Ecologia, já na sua 15.ª edição, é promovido bienalmente pela Federação Europeia de Ecologia. Foi a primeira vez que Portugal, através da Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), acolheu este evento. Tradicionalmente organizado dentro e para a academia científica, o desafio a que a SPECO se propôs foi abrir a temas mais gerais, convidar empresários e gestores para, em conjunto com os ecólogos, tirar conclusões de como a ecologia pode ser incorporada nos objectivos do desenvolvimento sustentável. A ecologia é uma ciência que procura compreender a interacção entre espécies e o meio em que habita. Tem, por isso, uma visão holística e global da complexidade dos sistemas que explora, através do desenvolvimento de abordagens cada vez mais inovadoras que vão desde a genética molecular à análise de imagens de satélite.

O primeiro desafio do congresso foi mostrar que os objectivos do desenvolvimento sustentável não existem, nem devem ser abordados de forma isolada. Pelo contrário, a resposta a uns está directamente relacionada com o modo como se abordam outros. E isso foi muito bem abordado a propósito do empolamento e mediatismo de alguns problemas ambientais, em detrimento de outros. As soluções devem antes passar por uma interacção entre os diversos objectivos e adaptá-los a cada situação e região. Não há soluções standard nem generalizáveis. O conhecimento deve contribuir para simplificar problemas e, de forma humilde, procurar desenvolver boas propostas que sirvam os interesses da humanidade tendo presente a sustentabilidade do planeta Terra.

O segundo desafio foi direccionado aos ecólogos. Ao longo desta semana foram convidados a interiorizar que o seu conhecimento, mesmo especializado, pode e deve ser fundamental para o desenvolvimento de ferramentas e propostas que apoiem a abordagem aos ODS. Por isso, a interdisciplinaridade dos investigadores convidados foi muito útil para permitir, a toda a comunidade presente incluindo inúmeros jovens, compreender em que medida o seu conhecimento especializado pode apoiar os ODS, desde que de forma colaborativa. Médicos, físicos, geógrafos, climatólogos, sociólogos e ecólogos estabeleceram, à volta dos ODS, pontos em comum de grande interesse que motivaram discussões relevantes para a abordagem holística dos problemas, para além do estabelecimento de parcerias internacionais.

As alterações climáticas foram bastante abordadas até pelo impacto que provoca junto das populações, empoladas pelas notícias nos media. Mas, as medidas defendidas por toda a comunidade científica foram muito consensuais: as alterações climáticas podem e devem ser revertidas investindo na preservação e recuperação dos ecossistemas, no aumento da diversidade biológica e genética e no desenvolvimento de soluções bio-económicas, baseadas no conhecimento da capacidade de resiliência dos organismos na natureza. A outra acção concertada está directamente relacionada com a produção de alimento e a constituição da dieta alimentar. A implementação de uma nutrição saudável e a redução de desperdícios permite assegurar a produção de alimento à população mundial. Esta adopção diminui, ainda, os problemas de saúde e permite a redução de emissão de gases com efeito de estufa de 51 para 7%.

Pelo contrário, do ponto de vista político e a nível global, as medidas que se preconizam estão directamente ligadas à diminuição das emissões de gases com efeito de estufa e da descarbonização da sociedade. Incentivar a produção de fontes renováveis de energia, a diminuição da utilização de carros nas cidades até para evitar a poluição atmosférica, são incentivos generalizados em todas as sociedades. Estas medidas, apesar de serem úteis e de manter, mostram-se, no entanto, incoerentes e contraditórias quando se incentivam portos de cruzeiros e aeroportos, que não só emitem mais gases com efeito de estufa, como poluentes atmosféricos. Esquece-se ainda que a regulação climática pode ser também feita através dos oceanos que ocupam 71% do planeta. O conhecimento dos ecólogos marinhos devia passar, de forma consistente, para as gerações mais jovens e haver um investimento significativo no estabelecimento de parcerias entre sectores, cidades e países. Numa lógica de economia azul, os cientistas podiam surgir como embaixadores (ou facilitadores) das necessárias alterações políticas e sociais.

Por último, há que passar a mensagem, saber comunicar e envolver a sociedade. A preocupação política está em passar aos jovens o conhecimento sobre as alterações climáticas, direccionar o ensino para o sucesso da economia, o empreendedorismo e não sobre o papel dos jovens na natureza e no mundo. Todo o ensino é baseado em escolas onde normalmente não há espaços verdes, e sem contacto com a natureza. Um mundo com problemas globais necessita de uma abordagem transversal. Por isso, ser sustentável não é algo a ensinar mas antes a motivar o sentir e viver.

 

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