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OPINIÁO

TERÇA FEIRA 7 DE MAIO DE 2019  

Era uma vez na América

João Almeida Moreira

No último domingo, Jair Bolsonaro foi ao programa mais canastrão do Brasil ser entrevistado pelo apresentador mais canastrão do Brasil num esforço para tentar convencer os brasileiros dos méritos da reforma da previdência social, o seu principal desígnio no primeiro ano de mandato.

Às tantas, a conversa derivou e o apresentador canastrão, Sílvio Santos, dono do canal SBT, confrontou o presidente com a facilitação da posse e do porte de armas. "Esse negócio da posse e do porte de armas não pode aprovar, se aprovar [o Brasil] vai virar um faroeste!"

Bolsonaro respondeu: "Mas nos Estados Unidos é liberado..."

O presidente usou o argumento que costuma encerrar qualquer discussão num certo Brasil e entre um certo tipo de brasileiros: se os Estados Unidos fazem, está certo.

Por terem afinidades históricas - foram descobertos, colonizados e tornaram-se independentes mais ou menos ao mesmo tempo - e geográficas - são o quarto e o quinto maiores países do mundo - as comparações entre o Brasil e os Estados Unidos são inevitáveis.

E por sentirem que enquanto construção coletiva os Estados Unidos têm um (modelo de) sucesso que o Brasil nunca teve, certos brasileiros olham para os americanos com o olhar de admiração que um cão dedica ao seu dono.

Segundo pesquisa do Pew Research Center de 2014, o índice de aprovação dos Estados Unidos entre os brasileiros passava os 65%, um dos maiores do planeta - e muito acima do da generalidade dos europeus.

Halloween, black friday ou cyber monday, todos eventos associados ao Dia de Ação de Graças, que (ainda) não se festeja no Brasil, fazem parte da cultura de certo tipo de brasileiros como se fossem tradições de séculos.

Levar os filhos à Disney World para ver o Rato Mickey, entretanto, é o sonho definitivo desse tipo de brasileiros.

Em 2013 e 2014, 51% do total de turistas de Miami Beach, Miami City e Coral Gables chegaram do Brasil.

O essencial da raiva de certo tipo de brasileiros com a crise económica que se verificou desde então não tem nada que ver com a corrupção, muito menos com a desigualdade pornográfica do país, mas sim com a alta do dólar que os impede de ir a Meca, perdão, à América.

É por lá que os cidadãos brasileiros mais investem fora do país. E foi para lá que os opositores dos governos do PT ameaçaram fugir quando Dilma Rousseff, em 2014, se reelegeu.

Diz-se que os pobres brasileiros sonham ser classe média, a classe média sonha ser rica, os ricos sonham ser milionários e os milionários sonham ser norte-americanos.

Pois Bolsonaro é o exemplo acabado desse brasileiro americanófilo. Por isso, apressou-se a visitar Donald Trump, em vez de cumprir a tradição de começar as visitas oficiais pela vizinha Argentina, e a dar vistos de permanência aos americanos sem contrapartida.

E cortou logo pela raiz a opinião contrária do apresentador canastrão ao usar o argumento categórico: "Mas nos Estados Unidos..."

Não dá, portanto, para calcular o tamanho da desilusão do presidente brasileiro quando percebeu que Nova Iorque o chamou de mal vindo, a propósito de um prémio atribuído pela câmara de comércio brasileira cuja receção seria na cidade. Não foi o alcalde de Havana, não foi o prefeito de Caracas, foi o mayor da mais importante cidade dos Estados Unidos que disse "o seu ódio aos direitos LGBTQ e planos destrutivos para o nosso planeta não são bem-vindos aqui".

E antes de Bill de Blasio se pronunciar, já a gigante de consultoria estratégica Bain & Company, a companhia aérea Delta Airlines e o jornal Financial Times - todos, certamente, perigosos marxistas - haviam recusado patrocinar o evento. Antes ainda, o Museu de História Natural e a rede de hotéis Marriott recusaram sediá-lo por Bolsonaro ameaçar valores caros aos nova-iorquinos como "tolerância e multiculturalismo".

De Blasio, que entretanto foi alvo de (mais) uma campanha tosca do bolsonarismo nas redes, comentou que "os valentões normalmente não aguentam um soco". E Bolsonaro desistiu, de facto, de viajar.

Surgiu, nas últimas horas, uma alternativa: receber o prémio em Dallas ou em Houston, Texas.

Ali, a um passinho do faroeste a que Sílvio Santos aludiu.

 

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