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OPINIÃO

DOMINGO 13 DE JANEIRO DE 2019  

PJ promete não avisar os bandidos

Ferreira Fernandes

Ontem, na tomada de posse do seu adjunto, o diretor da PJ Luís Neves discursou: "Não é admissível que de forma criminosa, repito, de forma criminosa, sejamos esperados na realização de diligências processuais." O homem veio da Procuradoria da República e há que lhe desculpar o juridiquês ("realização de diligências processuais"), aliás compensado pelo falar cortante ("não é admissível que de forma criminosa, repito, de forma criminosa"), também natural, pois trata-se de um operacional que durante anos dirigiu a Unidade Nacional de Contraterrorismo.

Em todo o caso, a frase precisa duma boa tradução. A melhor deu-a Woody Allen, na cena de abertura do filme Bananas. Na capital de San Marcos, uma república das bananas, o jornalista de cadeia televisiva americana está no sopé da escadaria do palácio presidencial e narra em direto para o mundo: "Dentro de momentos o Presidente deste adorável país vai aparecer e ser assassinado"... Cena que está nos anais das comédias de Hollywood e que os portugueses tão bem conhecem das aberturas dos nossos telejornais caseiros.

Por cá não há prisão de figurão ou raid da polícia para recolher papelada e computadores alegadamente criminosos, que não sejam precedidos (precedidos!) por chusma de jornalistas, microfones e câmaras. A polícia chega e, à esquina, o repórter... O público ficava surpreendido, "como raio souberam eles?!", mas é tão repetida a cena que já se encolhe os ombros.

A cena marada entrou nos nossos costumes. E, no entanto, além de expor simples suspeitos a detenções que seriam mais justas feitas discretamente, o telefonema escondido feito por um polícia avençado ao amigalhaço jornalista pode também alertar o putativo criminoso procurado, levando-o a resguardar-se ou até a fugir e inutilizar a operação.

E assim continuávamos o conluio policial-mediático, a coisa acabando, meses ou anos depois, com o estardalhaço fátuo do costume - muita câmara e pouca condenação. Encolher geral de ombros... Afinal, nem sempre o jornalista, de tão burro, exagera e faz como aquela colega de antigo jornal do Porto, que tendo sido prevenida com demasiada antecedência pela fonte policial, decidiu escrever no seu matutino. "Hoje, pelas 15 horas, vai fazer-se uma rusga de combate à droga na casa de conhecido traficante no bairro da Sé."

Ontem, enfim, as palavras: "Não é admissível que de forma criminosa, repito, de forma criminosa..." Crime, disse ele, o diretor da PJ Luís Neves. Boas, as palavras. Esperemos os factos daí decorrentes.

 

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