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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 30 DE NOVEMBRO DE 2018  

O inverno de Bolsonaro

João Almeida Moreira

Uns 1100 anos antes de Cristo, reza a lenda, a Odisseia, a Ilíada e a Eneida, os troianos perderam a guerra ao permitir que um presente grego, em forma de cavalo cheio de soldados inimigos, entrasse na sua fortaleza.

Em 1812, reza a história, Napoleão fracassou, menos pela força do exército rival e mais pelos rigores do inverno, na ambiciosa invasão à gelada Rússia.

O tempo o dirá, mas o Cavalo de Troia ou o General Inverno de Jair Bolsonaro pode chamar-se "médicos cubanos".

Na semana passada, Havana resolveu abandonar a versão brasileira do Mais Médicos, um programa iniciado em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff para abastecer cidades necessitadas de profissionais de saúde, por discordar dos termos propostos pelo presidente recém-eleito para manter o acordo.

Desde que, em campanha, o então candidato Bolsonaro atacara o regime do país caribenho que o fim da participação cubana no programa já era dado como provável, mas foram as condições impostas já depois da eleição que precipitaram o fim da relação.

"Condicionámos a continuação do programa Mais Médicos à aplicação de teste de capacidade, salário integral aos profissionais cubanos, hoje a maior parte destinada à ditadura e à liberdade para trazerem as suas famílias, infelizmente, Cuba não aceitou", disse Bolsonaro, pelo Twitter, a sua forma de comunicação preferida, tal como do seu presidente preferido.

Ora, os perto de nove mil médicos cubanos prestavam serviços em cerca de 1600 municípios atendendo um total estimado pelos especialistas em 28 milhões de brasileiros.

O caso preocupa essas populações - cerca de três vezes Portugal - mas também os prefeitos das cidades e os governadores dos estados, muito deles falidos, agora com mais um problema sério para resolver porque os médicos locais não se mostram entusiasmados com a hipótese de irem para os rincões isolados no Brasil profundo.

Na imprensa, brotam entretanto relatos de clínicos cubanos exemplares, adorados pelas suas comunidades, e de doentes crónicos que, ao perderem o atendimento regular, correm agora risco de vida.

Como em intervenção na Câmara dos Deputados em 2013, logo após o início do programa, Bolsonaro o chamou de "Maus Médicos" e criticou a possibilidade de os profissionais trazerem as suas famílias para o Brasil "infestando o país de agentes cubanos perigosos para a democracia", tomemos como falsos aqueles pretextos no tweet presidencial para provocar o cancelamento do acordo.

Nesse caso, o presidente eleito preferiu prejudicar 1600 municípios e 28 milhões de compatriotas em nome da sua aversão ao (indefensável) regime cubano. Depois de anos a criticar a política externa brasileira do PT, baseada, segundo o próprio, "em critérios ideológicos", Bolsonaro usa um critério ideológico para provocar o encerramento de um programa útil ao país.

Tomemos agora o tweet presidencial como verdadeiro, ou seja, assumamos que a sua preocupação com o salário e as famílias dos médicos cubanos é genuína. Nesse caso, em nome do bem-estar de nove mil cidadãos estrangeiros, Bolsonaro não se importa de pôr em risco a saúde de 28 milhões de compatriotas?

Ninguém está livre de cometer erros. Os troianos foram ingénuos, Napoleão temerário. Sucede que, segundo Homero e Virgílio, os primeiros governaram a Anatólia por séculos e só perderam a guerra com os gregos depois de dez anos de árduas batalhas. E o segundo, antes do desaire russo, conquistara meia Europa e colocara o seu nome na história universal.

O drama de Bolsonaro é que o seu inverno pode ter começado um mês e meio antes de tomar posse.

 

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