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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 26 DE OUTUBRO DE 2018  

Premium Desculpem, mas não percebo

Por Anselmo Crespo

Uma das maiores ironias - para não lhe chamar outra coisa - do discurso de vitória de Bolsonaro foi ouvi-lo repetir, vezes sem conta, a palavra liberdade. É como se uma das palavras mais bonitas que conheço ficasse conspurcada de cada vez que sai da boca de um homem que não fez outra coisa na vida que não fosse lutar pelo fim da liberdade de outros.

Mas terá sido a liberdade, ou a falta dela, que levou os brasileiros a escolher um aspirante a fascista para a presidência do Brasil? Conheço bem os argumentos dos que votaram Bolsonaro e decidiram colocar um desprovido no mais alto cargo da nação: a criminalidade e a violência de um país que, há muito, se tornou impróprio para quem lá vive, quanto mais para quem o visita; a corrupção, que é transversal a todo o sistema político e económico brasileiro; a profunda desilusão com um PT que teve nas mãos uma oportunidade histórica de refundar o Brasil e acabou por se entregar à mediocridade de um sistema corrupto. Foi a liberdade que permitiu aos brasileiros dizer basta e votar contra o PT. Mas foi uma total ausência de liberdade que os levou a votar Bolsonaro.

Os brasileiros não procuraram apenas um candidato com uma mensagem nova. Procuraram, num ato de fé, uma espécie de messias que, se não fosse capaz de lhes resolver os problemas todos de uma só vez, lhes desse, pelo menos, a perspetiva de um novo rumo. Alguém que significasse um rompimento com o atual sistema corrupto e com a coragem para fazer o que tem que ser feito. Alguém que lhes devolvesse a esperança no país que amam, que os deixasse ser brasileiros em vez de vítimas permanentes.

Bastava olhar para o boletim de voto da primeira volta para perceber que sobravam poucas - para mim, nenhumas - opções. Mas, se a política é a arte do possível, um ato eleitoral é, muitas vezes, a arte da escolha de um mal menor. A prova disso mesmo é a quase eleição à primeira volta de Jair Bolsonaro.

E é aqui que não compreendo a escolha dos brasileiros. Porque não concebo que se esteja disposto a eleger para presidente alguém que assume de forma tão clara a sua xenofobia, o seu racismo e que se orgulha de ser homofóbico. Porque não acredito em figuras messiânicas na política e porque a história já nos mostrou à evidência que estas figuras, quando chegam ao poder, normalmente abusam dele.

"Não concebo que se esteja disposto a eleger para presidente alguém que assume de forma tão clara a sua xenofobia"

Não compreendo como é que um eleitor aceita de bom grado que a sociedade onde vive pode sofrer uma regressão de décadas, em nome de uma espécie de nova esperança.

Desculpem, mas não percebo como é que, perante tanto mal menor, os brasileiros decidiram escolher o mal maior.

Já o escrevi: Bolsonaro não é assustador por ser de extrema-direita ou por ser um fascista. Ele é perigoso precisamente porque não tem o mínimo de pensamento político. Basta ler o powerpoint a que ele chamou de programa eleitoral para perceber que se trata de uma fraca colagem de ideias ultraliberais - muitas delas fracassadas noutras partes do mundo - a que se somam um conjunto de slogans vazios de conteúdo e de sentido. O lado aparentemente genuíno de Bolsonaro é, na verdade, uma interpretação ao melhor estilo de uma novela brasileira, que foi capaz de capitalizar o descontentamento de um povo que parece estar farto da vida real.

Acabaram-se as cenas dos próximos capítulos. A novela acabou. A partir de agora, o Brasil volta à dura realidade com que tem lidado nos últimos anos. Com uma enorme diferença: é que no palácio do Planalto pode até não estar um corrupto - a ver vamos -, mas está alguém que já demonstrou não ter qualquer respeito pela vida humana. Na presidência do Brasil, está agora um homem que promete perseguir os homossexuais. Como presidente, os brasileiros têm agora um racista a liderar um país multiétnico e multicultural. À frente de um dos maiores países do mundo, está a partir de agora um populista - hipócrita, como são quase todos - de quem ninguém sabe muito bem o que esperar.

"A novela acabou. A partir de agora, o Brasil volta à dura realidade com que tem lidado nos últimos anos"

A grande dúvida que subsiste, depois da eleição de Bolsonaro, é a mesma que existia aquando da eleição de Donald Trump: terá a campanha sido só fogo de vista ou o novo Presidente do Brasil vai mesmo cumprir o programa com que se apresentou a eleições? A lei da força vai imperar? A economia brasileira vai mesmo ser entregue aos privados? A justiça vai transformar-se ainda mais em justiceira - como se não fosse já o suficiente? Nenhuma das respostas augura nada de bom.

Se Bolsonaro, de facto, cumprir o que prometeu, o Brasil não só corre o risco de sofrer um retrocesso civilizacional sem precedentes, como dificilmente se livrará desta figura sinistra. Se, por outro lado, o novo presidente se revelar apenas um bluff eleitoral, que chegou ao poder por entre os pingos da chuva, mas que rapidamente se vai aculturar a um regime podre, isso não deixa de significar que o Brasil perdeu mais uma grande oportunidade para virar a página.

É por isso que eu respeito, mas não percebo o resultado destas eleições. Porque, se é verdade que os brasileiros votaram com uma margem de liberdade muito curta, não é menos verdade que essa liberdade, daqui para frente, se vai encurtar ainda mais.

 

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