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OPINIÃO

QUINTA FEIRA 20 DE SETEMBRO DE 2018  

Cuidar

Marisa Matias

No dia 21 de setembro celebrou-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Muito pela inoperância coletiva, foi mais um dia no calendário. Houve referências à efeméride, palavras ditas, intenções declaradas, mas tudo tão pouco para o que é necessário fazer.

Ao longo dos últimos anos fui conhecendo melhor esse mundo abandonado. O mundo das pessoas que deixam de saber quem foram e o mundo das pessoas que as acompanham nesse caminho. Vidas que se transformam em outras vidas, vidas de mortes sucessivas, vidas em permanente adaptação e reconstrução.

Imagino que possam não ter sido estas vidas que estavam na mente de Manuel Gusmão quando escreveu o poema Em flashes sobrepostos, mas é dessas vidas que me lembro quando leio as suas palavras, porque é assim que as imagino.

E agora / com as costas contra a dura e húmida tábua do chão / da terra já não ouves sequer as águas desse rio inventado / apenas te chegam à altura da cabeça deitada os ruídos automóveis na via rápida e / intermitente, a veloz e prolongada agonia de uma ambulância; / podes deslocar a atenção sem moveres a cabeça e trocar esses ruídos urbanos por um pouco / de pássaros entre a ramaria das árvores que te encimam / e cercam, e podes recordar-te: então é como se visses inúmeras / imagens dos teus corpos antigos enterrando-se neste teu corpo de agora e com ele se abatendo em flashes sobrepostos / sobre este rio de ervas, pedra arruinada entre ruínas.

Há muita gente que se dedica a estudar as causas da doença e a procurar soluções. Há profissionais empenhados nos hospitais, nos centros de saúde, em instituições. Mas, entendamo-nos, seja porque o negócio não é rentável ou porque se encaixa na inevitabilidade do envelhecimento, a doença de Alzheimer continua a ser uma não prioridade. O país não está preparado, as instituições não estão preparadas, não há apoios, não há reconhecimento de direitos. Assumamos, não estamos preparados.

São cada vez mais as pessoas que sofrem da doença de Alzheimer e são cada vez mais as pessoas que delas têm de cuidar. Cuidar pode ser um verbo transitivo e, se assim o tomarmos, significa imaginar, supor, pensar, meditar. Pode ser também um verbo pronominal e, nesse caso, significa julgar-se, ter-se por, tratar-se. Mas pode ainda ser um verbo intransitivo e aí os significados são "ter cuidado em" ou "trabalhar". Há, em Portugal, mais de 800 mil pessoas a ter de cuidar dos seus. Pessoas que para cuidar abandonam as suas vidas, os seus empregos, as suas amizades, os seus direitos. Pessoas a quem nenhum cuidado é prestado. Há dois anos que várias destas pessoas lutam pela criação do estatuto de cuidador informal que lhes garanta alguns direitos e lhes devolva parte da dignidade. Há pouco tempo organizaram-se na Associação Nacional de Cuidadores Informais, que foi dos gestos mais belos a que assisti em Portugal nos últimos anos. Conheço algumas dessas pessoas autênticas, fora do comum, sobre-humanas. Mas há que cuidar de quem cuida. Os dias 21 de setembro não podem converter-se numa repetição do que está ainda e sempre por fazer. Devemos-lhes isso, devemo-nos isso.

 

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