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OPINIÃO

DOMINGO 5 DE AGOSTO DE 2018  

Make Brazil happy again

João Almeida Moreira

Quem visita o Brasil sabe que por aqui se veem traços de Portugal em todo o lado, da língua, claro, à religião mais professada, da arquitetura do centro das cidades ao essencial da gastronomia, e até em sensações, instintos, quase pressentimentos, que denunciam a história e o sangue comuns.

Mas quem mora no Brasil, o que é diferente de visitá-lo, entende que o modelo do gigante sul-americano é o gigante norte-americano Estados Unidos.

Já não é Portugal, que perdeu ascendente gradual sobre a ex-colónia ano após ano dos últimos 200 e é tantas vezes visto com preconceito (o inverso também é verdade); nem a herança indígena; nem a África, raiz de tanta coisa; nem Itália, Líbano, Alemanha ou Japão, de onde vieram hordas de emigrantes.

O Brasil bebeu de todas essas culturas mas construiu a sua própria. E construiu-a à imagem e semelhança dos endeusados Estados Unidos, com quem partilha a história curta, por comparação com o Velho Continente, e a geografia longa, novamente por comparação com os minipaíses europeus.

Uma cultura baseada na juventude, na velocidade, na emoção e no consumo - muito consumo.

É assim na política ou na religião. Uma campanha presidencial americana ou brasileira é um acontecimento colossal, teatral e caro como são colossais, teatrais e caras as reuniões da imensidão de cultos alternativos nos dois países.

E na justiça: os suspeitos de um crime, antes mesmo de serem julgados por um juiz, são condenados entre dois intervalos publicitários na TV, de algemas na mão, por milhões de telespectadores - parte deles com armas guardadas na gaveta por baixo do televisor.

No entretenimento, Hollywood e o seu equivalente carioca, o Projac, fabricam estrelas fast food antes de as trocar por outras tão descartáveis como as anteriores e as seguintes.

Os americanos não contemplam a figura cinzenta, e muito europeia, do empate em nenhum dos seus três desportos preferidos. E os brasileiros adaptam-se, muito a custo, a essa maçadora soma de pontos do futebol europeu: uns e outros preferem playoffs, "mata-matas", eliminatórias, noites de tudo ou nada, da glória toda ou do fracasso completo. Até porque vende mais.

Nas praias da Califórnia, da Florida, do Rio ou do Nordeste passeiam-se corpos sem mácula mas com silicone, botox, liftings, lipoaspirações, abdominoplastias, rinoplastias, algumas perpetradas em clínicas tipo Dr. Bumbum, porque a imagem é a alma do negócio.

No entanto, os Estados Unidos, apesar de todas as suas inúmeras faltas, são produtivos. E ricos. E poderosos. O Brasil adoraria ser as três coisas - diz-se que um pobre no Brasil quer ser da classe média, um da classe média quer ser rico, um rico quer ser milionário e um milionário quer ser americano - mas não é.

É, no entanto, feliz - eis a sua riqueza e o seu poder. Na saúde ou na doença, a felicidade no Brasil é obrigação, necessidade, compulsão, vício. E antídoto contra todas as injustiças e desgraças diárias.

Talvez assim se entenda melhor o slogan que Lula criou, consciente ou inconscientemente, em carta enviada a um velho amigo chamada "dia do volto", numa referência ao "dia do fico", de Dom Pedro IV, o rei português que se recusou a voltar a Lisboa e se tornou Dom Pedro I, imperador do Brasil. Nessa carta, em vez de "make America great again", o bordão que levou Trump para a Casa Branca, escreveu "vou fazer o Brasil feliz outra vez".

Lula, que entende o Brasil como ninguém, porque nasceu no meio do povo miserável, cresceu ao lado das classes trabalhadoras e acabou deslumbrado, e traído, pelas pseudoelites, sabe que embora pareça querer ser produtivo, rico e grande, como o americano, o brasileiro, de todas as classes sociais, quer é ser feliz. Outra vez.,P. Como nos últimos anos, pela crise económica e pela crise moral, não foi tanto, vai emigrando. Principalmente para Portugal, onde se veem traços de Brasil em todo o lado, da língua, claro, à religião mais professada, da arquitetura do centro das cidades ao essencial da gastronomia, e até em sensações, instintos, quase pressentimentos, que denunciam a história e o sangue comuns.

 

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