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OPINIÃO

QUARTA FEIRA 01 DE AGOSTO DE 2018  

"Elogio" na boca de Bolsonaro é insulto

Ferreira Fernandes

Jair Bolsonaro é defensor da ditadura militar e da tortura, é racista e homofóbico. Tem um mérito, porém: tropeça na língua portuguesa frequentemente mas quando lhe dá, e dá-lhe muito, para dizer enormidades, faz-se entender. "Pinochet devia ter matado mais gente" é um exemplo do seu florilégio. Outro: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Como já começa a ser um padrão com brutos notórios, há muitos que gostam: Bolsonaro é candidato presidencial nas eleições brasileiras de outubro, e as sondagens põem-no à cabeça.

Bolsonaro a falar dele até seria capaz de ser excelente, pelo que se revela, não fosse haver tanta gente que gosta de brutos, mas isso eu já disse. Falta falar dele de outras coisas que ele diz e não sabe, no fundo quase tudo. Mas fiquemo-nos pelo que Bolsonaro disse, há dias, de um momento da História portuguesa: "O português nem pisava África, eram os negros que entregavam os escravos."

Aparentemente, a frase suaviza o papel dos portugueses na escravatura de negros para as Américas. É verdade que a escravatura africana precede a chegada dos portugueses, praticavam-na os árabes e reinos negros. Mas os portugueses pisaram África. Por exemplo, Angola por ela dentro, no hinterland Luanda-Malanje e no sertão de Benguela, caçavam e comerciavam "peças", isto é, gente para ser transportada pelo Atlântico e revendida como escravos, por exemplo no Brasil.

Nessa escravatura atlântica, Portugal começou cedo e acabou tarde. Vários historiadores portugueses têm escrito sobre esse tráfico enorme e imundo, e da nossa responsabilidade - e até os jornais, como o DN, têm reproduzido esse debate. Que um político ignorante e vil apareça de alguma forma a dar uma mão a Portugal, era o que mais faltava! Então no Brasil, onde Portugal teve e tem uma História grande, comovedora e inspiradora - mas também essa miserável e dolorosa escravatura -, os interlocutores devem ser outros, porque os há, muitos e bons.

 

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