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OPINIÃO

SEGUNDA 30 DE JULHO DE 2018  

Já esteve de pé, hoje?

Ferreira Fernandes

Vídeo, segunda-feira, em direto; textos nos jornais pelo Mundo fora, ao longo da semana. Hoje, sexta, retomo o assunto. A passageira sueca Elin Ersson, 21 anos, não se sentou no seu lugar da Turkish Airlines, na partida do voo de Gutemburgo para Istambul. Um avião não pode descolar com um passageiro de pé.

Através do telemóvel e do Facebook, Elin dizia que no avião ia um deportado, um jovem afegão que depois da escala na Turquia seria mandado para o Afeganistão. Para a morte, concluía a sueca. A tripulação e os passageiros protestaram pelo atraso a que o gesto de Elin obrigava. As bochechas da jovem iam ficando vermelhas, os olhos lacrimejam, mas ela insistia em ficar de pé. E o avião não partia.

Em 2015 entraram de 160 mil refugiados na Suécia, mais de metade eram afegãos e só um quarto viu satisfeito o seu pedido de asilo. É muita gente, contemplados com asilo ou recusados, e não conheço solução para tantos milhares de pessoas. Mas esta crónica não é sobre elas. É sobre Elin Ersson que não se sentava por causa de um afegão. Um, não a estatística.

Um passageiro gritou com Elin: "Você está a aborrecer as pessoas." E ela: "Faço o que posso para salvar a vida de uma pessoa." E o apressado: "Estou-me nas tintas com o que você pensa, está é a impedir que todos os passageiros cheguem ao seu destino." Justamente, Elin não queria que um dos passageiros chegasse ao que lhe tinham destinado: "Ele vai morrer".

Elin Ersson é uma ativista contra as expulsões cada vez mais comuns na Suécia e eu, é um facto comprovado pela minha quietude sobre essa matéria, estou um pouco como o passageiro irado. Tenho de o reconhecer, não me importo com o que ela pensa, aliás, como todos os afegãos sabem pelo que eu nunca fiz por eles.

Elin é pouco organizada, o jovem afegão que ela protegia até nem tinha embarcado naquele avião. Mas naquele avião ia outro afegão, de 54 anos, também deportado para o seu país. "Ele vai morrer", disse Elin, mudando de protegido. "Como sabe?", perguntou alguém da tripulação." E ela disse: "Porque é o Afeganistão!" Em questão de vida ou de morte era uma justificação bastante razoável.

Enfim, Elin e o deportado desceram e o avião descolou. O problema dos refugiados afegãos na Suécia não ficou resolvido, nem talvez o do afegão que desceu as escadas em Gotemburgo... e pode ter de voltar a subi-las. Mas, e é só isso que eu queria dizer, o cuidado pelo outro, a compaixão e a ajuda, mesmo não levando a nada, faz bem saber que existem.

 

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