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OPINIÃO

TERÇA FEIRA 12 DE JUNHO DE 2018  

Copos mal lavados

Por João Paulo Cotrim

Nem no fado nos é permitido ceder à facilidade de achar que uma palavra basta para invocar os seus múltiplos sentidos, matéria ou sombra. Exemplo? Destino. Bastaria dizê-la, escrevê-la para que algo acontecesse? Não basta desenhá-la no ar, há que saber os caminhos que percorre entre nuvens e calçada. Um livro de poesia desvela-se na dança entre mãos e olhos, esse o palco maior onde acontece o mistério. O bom verso não se limita a dizer gabardina, terá de me entregar o cheiro a chuva. Sirva isto de entrada a pés juntos para dizer ao que venho: a publicação, que resulta ser a sua primeira em português, de Privilégio de Penumbra, de Felipe Benítez Reyes, poeta, narrador, ensaísta, tradutor, enfim, homem de letras (que não desdenha a imagem), nascido em Rota, Cadiz, nos idos de 1960. Li algures que o nosso autor, um dos mais consagrados contemporâneos, tem a fama de fazer livros redondos, no sentido de completos e bem acabados, mister de carpinteiro. Este, ainda que breve, pode ser acrescentado como argumento a favor. Queria convencer-vos, cumprindo o prazer maior do editor, a entrar por estas páginas adentro, e com isto quero dizer cidade, no caso Lisboa, o porto dos portos para o transeunte perdido, lugar das partidas e chegadas, onde se faz, como em nenhum outro lugar, a contabilidade dos destinos. Porquê? Por ser Lisboa uma página manuscrita do poeta múltiplo: "Esta cidade, enfim, não a contemplas: lê-la/ na caligrafia oblíqua de Pessoa." As colinas são, doravante, as letras desenhadas pela mão, olhos e mente de Fernando Pessoa. E de agora em diante por se transfigurar em futuro que toca o nosso presente a caminho do passado, ou vice-versa. Ou seja, Pessoa percebeu que a cidade do desassossego é a da nostalgia e do cansaço que faz de nós seres entediados do nosso tempo. Lisboa fez-se todas as cidades, em correspondência com as de tantos outros criadores ou filósofos. Cada um de nós é um homem perdido. Felipe passeia como ninguém, como flâneur, por estes lugares feitos de esquinas e montras, portanto, de ilusão. Para chegar a lugar nenhum, a conclusão alguma. "Se pudesse reescrever a minha vida, retificar os seus adjetivos/ e os seus tempos verbais, de que premissa partiria, de que tom?" As suas colagens, que ilustram o singelo volume, parecem querer responder. Somos também o viajante portentoso, "recipiente de todas as lendas e o depositário orgulhoso/ de todos os prodígios", aquele que avança sem medos. "O receio do futuro dissolve-se num copo mal lavado." Somos nada, é certo, mas "eu, que não fui nada, fui por vezes o universo."

 

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