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OPINIÃO

DOMINGO 06 DE MAIO DE 2018  

Pindamonhangaba

Por João Almeida Moreira

A humanidade já consegue desenhar mapas astrais com precisão, anunciar o sexo do bebé às 20 semanas de gestação, calcular o dia e a hora do aparecimento da nova tempestade tropical, antever vida em galáxias distantes, mas não consegue garantir o nome do futuro presidente do Brasil, o país onde, diz-se, até o passado é imprevisível.

No entanto, aqui vai um prognóstico, provavelmente destinado ao ridículo: o próximo presidente da República é natural de Pindamonhagaba, pacata cidade a 150 quilómetros de São Paulo, cujo nome significa em tupi algo como "oficina de anzóis".

Foi lá que nasceu Geraldo Alckmin, o governador do estado de São Paulo de 2001 a 2006 e de 2011 até ao mês passado, quando teve, por lei, de abandonar o cargo para se apresentar como concorrente ao Palácio do Planalto em outubro.

Apesar de apresentar ferimentos leves do embate com a Lava-Jato, foi graças à operação que o candidato do PSDB viu os seus dois rivais internos - o gravemente atingido por ela José Serra e o morto e sepultado por ela Aécio Neves - desistirem de avançar. No interior do partido, ganhou ainda um braço-de-ferro, que a páginas tantas pareceu perdido, com uma criatura inventada por si, o prefeito de São Paulo João Doria, considerado muito mais carismático do que o criador.

Carisma, essa qualidade tão subjetiva, nunca foi o forte de Alckmin, em quem se colou como uma tatuagem a alcunha "picolé de chuchu" - sendo que picolé é sorvete e chuchu um legume sensaborão. Membro do Opus Dei, homem de gestos e sorrisos hirtos, adepto de serões no recato do lar e não das arrebatadoras baladas paulistanas, chamado de caipira (ou seja, de provinciano) pelas influentes alas do mais urbano e chique dos partidos brasileiros, enfrentou também a desconfiança de Fernando Henrique Cardoso, que preferia Luciano Huck, animador da TV Globo, como nomeado do PSDB.

Ultrapassados todos os obstáculos, Alckmin deve receber em semanas o apoio do MDB, o maior partido brasileiro, traduzido na liderança absoluta do campo de centro-direita nas eleições. E num tempo de antena superior a todos os rivais. E na indicação de Henrique Meirelles, elogiado ministro das Finanças do governo de Michel Temer, para seu vice-presidente.

Nada mau, para o anestesista de profissão nascido na década de 1950 numa família de origem libanesa em que todos os homens se chamam Geraldo José ou José Geraldo, à maneira dos Buendía de Macondo, na pacatíssima Pindamonhangaba.

Mais ou menos no mesmo ano em que Alckmin nasceu chegava a Pindamonhagaba José Euclides Ferreira Gomes Filho para assumir as funções de defensor público no tribunal local. Natural de Sobral, cidade do longínquo Ceará, Euclides sonhava um dia regressar a casa e assumir a prefeitura da cidade natal, cujos antepassados, de origem portuguesa, foram os primeiros governantes.

Teria de esperar perto de 20 anos. Entretanto, casado com uma menina local, viu nascer em Pindamonhangaba o mais velho dos seus filhos, a quem batizou de Ciro, cinco anos menos um dia depois de noutra casa, não muito longe dali, ter nascido um tal de Geraldo José.

Ciro Gomes, que chegaria a prefeito de Fortaleza, a governador do Ceará, a deputado federal, a ministro de Itamar Franco e Lula da Silva e a marido da atriz Patrícia Pillar, é candidato à presidência da República pela terceira vez, pelo PDT, partido fundado em torno da figura de Leonel Brizola que perdeu algures no caminho a predominância na esquerda para o PT de Lula.

Com Lula preso, o candidato Ciro e Fernando Haddad, o plano B do PT, vêm limando arestas de forma a anunciar a lista de sonho das esquerdas: Ciro para presidente, Haddad para vice, com o PcdoB da candidata Manuela d"Ávila e o PSOL do concorrente Guilherme Boulos no bolo. Uma lista que unificaria o centro-esquerda assim como a de Alckmin agrupa o centro-direita. Ambas, pela força das máquinas partidárias que representam, asfixiariam ainda a dos outsiders Jair Bolsonaro, Marina Silva ou Joaquim Barbosa.

Qual dos pindamonhagabenses ganha? Não adianta tentar prever através do horóscopo porque são ambos do signo Escorpião. Como o ainda líder nas sondagens, Lula, diga-se de passagem.

 

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