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OPINIÁO

QUINTA FEIRA 05 DE ABRIL DE 2018  

A família B

Por João Taborda da Gama

Foi uma espécie de 15-M, mas em abril, e sete anos depois, a viagem da família Gama a Madrid, uma turba imunda na zona das Puertas del Sol, desafiando a autoridade estabelecida, com reivindicações contraditórias, sem arredar pé enquanto os seus caprichos não fossem satisfeitos, e que abriu as portas a um tempo longo de política de austeridade e de finanças musculadas.

Foi por isso, por ter havido as manifestações do tal 15 de maio de 2011, que nem a polícia, nem autóctones, nem mesmo a maior parte dos outros turistas estranharam adolescentes enjoados, um corpo de barriga para baixo aqui e ali colado ao chão, e gritos como "museus de quadros é uma seca", "quero ir para a minha casa", "tu não mandas em mim", "qual é a piada que isto tem?", "paaaa-iii" (com quebra do ditongo), vamos à Zara", "falta muito para [qualquer coisa]?", "mas tu disseste que [acrescentar qualquer coisa]".

Digo a maior parte não estranhou, mas há sempre o grupo de viajantes norueguesas, com belas reformas e um belo aspeto, estilo anúncio Tena Lady, que leram muito atentamente o guia naquelas partes iniciais em que se avisa para a existência de famílias albanesas ciganas que circundam os turistas junto aos monumentos e usam as crianças para tirar as carteiras, que olham assustadas, ou dão um ligeiro passo ao lado quando os Gamas se apresentam em formação circular ou triangular, e se preparam para fazer aquele gesto que julgam discreto de rodar a carteira da lateral para a frente do corpo, mas só não o fazem porque percebem que o interesse é o vendedor egípcio de uns helicópteros florescentes catapultados muito alto com um elástico, ou a atuação dos bailarinos comediantes de salsa, ou o homem estátua com cara de monstro.

Há ainda aquelas duas japonesas (vestidas num estilo pop-manga-laranja) que olham para um homem de barbas pejados de filhos e tentam descobrir se por debaixo do casaco há um colete-bomba, mas depois tranquilizam-se quando intuem que é uma turba com demasiada vontade de viver para se explodir pelos ares. Aliás, o conceito de bombismo suicida está a impressionar muito o Joãozinho, que acha um pouco injusto os bombistas morrerem, que podiam atirar as bombas de longe, assim (exemplifica com a mão um lançamento de granada), e fugirem logo sem serem mortos nem apanhados pela polícia (a ideia de ser apanhado pela polícia está alta na tabela dos maiores males que pode acontecer a alguém). Esta conversa foi quando tentámos ver o memorial às vítimas dos atentados do 11 de Março de 2004, ou 11-M, que aqui gostam muito de siglas, na Estação Atocha, mas estava fechado, estavam em manutenção.

Os horrores da história são sempre uma boa maneira de manter as crianças focadas em viagem, técnica que tenho desenvolvido ao longo dos anos, e a Espanha é um maná para isso, desde a ETA à Guerra Civil, com umas gotinhas de Inquisição, Prestige, garrotes e Aljubarrota não há história sem bis, conta outra vez.

A partir de meio da semana, o pontapé de bicicleta do Cristiano Ronaldo tomou conta do imaginário, e com sucesso se evitou uma ida ao Hospital D. Quijote (equivalente aos Lusíadas) para reparar a espinha de alguma das crias caídas nas suas tentativas de imitação, explicando que era muito difícil fazer aquilo, só o Cristiano.

Mas a grande atração futebolística veio na quinta quando o pai na quinta foi ver o Sportem contra o Atleti, num estádio chamado Wanda, com o afilhado, porque nenhum dos filhos professa a verde fé e não foram por isso merecedores dos cinquenta euros do bilhete. Aliás, o Joãozinho, o das bombas, deu há poucos meses o maior desgosto ao pai tendo mudado do Sporting para o Benfica (já tinha ido ao estádio, e até tinha um equipamento com o nome dado pelo avô) tudo, diz ele, por um tal Eduardo que estava numa festa de anos, mas que não é da escola, e que lhe disse que o Sporting nunca ganha e que se ele não mudasse para o Benfica morria (sim, Eduardo, se estás a ler fica sabendo que nunca perdi uma vingança e que espero o que for preciso).

É complicado explicar o sportinguismo às crianças, sobretudo quando o pai não dá um exemplo de devoção particular, e porque explicar que se ama quem perde viola alguns comandos educacionais que o próprio pai vai contrabandeando quando a mãe não está a ouvir, mais dirigidos, digamos, a uma orientação para o esforço e os resultados, e não exclusivamente para a felicidade e o crescimento da pessoa num contexto de autoconfiança da criança como um fim em si mesmo.

Na bancada do Wanda muita testosterona lusa à solta. Futre vai ao centro do relvado como glória dos dois clubes. Os adeptos do Sporting assobiam, por um lado vaia não merecida, mas por outro como não vaiar quem jogou no Benfica? E marcou ao Sporting. Eu estava lá, na Luz, e levei cacetada da polícia. Aqui em Madrid a polícia também malhou nos adeptos do Sporting que se entretiveram a malhar uns nos outros (dizem-me que um não lhe apetecia aplaudir e teve de ser corrigido pelos outros). O corpo especial da polícia, umas tartarugas ninjas com capacete e viseira, entraram pela bancada acima distribuindo castanhada. Quando o jogo acabou, ficámos à espera que o estádio vazasse quase quarenta minutos. A paciência ia-se esgotando e às tantas, ao meu lado, uns jovens de grau intelectual inverso ao grau alcoólico começaram a entoar, a 20 centímetros da tal polícia, o pasodoble Y Viva España, mas em que viva foi substituído por um sinónimo de meretriz, que por ter quatro letras e acabar em a, e ser igual em espanhol, queda muy bien na letra. Os donatelos fingiram não ouvir e a canção acabou por terminar, numa atitude de maturidade adulta que tentarei copiar para os poucos dias de viagem que restam. A não ser que os suspenda a todos. É isso. Vou suspendê-los a todos e para o ano vem a Família B. Que é a mesma coisa, só que pior.

 

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