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OPINIÃO

DOMINGO 11 DE MARÇO DE 2018  

Errar pela terceira vez

Por Viriato Soromenho Marques

Quem teme o que de mau pode atingir a Europa como resultado da confirmada confusão política italiana deveria antes recear as previsíveis águas paradas do próximo governo Merkel, nascido de um parto que começou com ferros e terminou por cesariana. Um governo apoiado por apenas 49% das intenções de voto (na década de 1970, a CDU-CSU mais o SPD chegaram a representar 90% dos eleitores!). Depois do triste espectáculo da decapitação suicida do SPD, a nova coligação começará a sua vigência, diminuída e fatigada. A ênfase retórica nas "reformas europeias", que abre as 177 pp. do acordo de coligação, só por milagre se tornará factual. Pormenor significativo: numa grosseira cedência à extrema-direita da AfD, o Ministério Federal do Interior incluiu no seu nome a palavra "pátria" (Heimat), com uma terrível carga tóxica, que o auditório germânico bem conhece... Hoje, na UE, aqueles partidos que no centro e na esquerda dizem defender o projeto europeu limitam-se a arrastar os pés. Não têm nenhuma visão realista de futuro a apresentar. Portugal não é exceção, apesar da saudável civilidade do debate político. O PS tem governado com o apoio do BE e do PCP, respeitando o tabu de excluir do acordo o assunto mais estrutural para o futuro: a reforma da UE e do euro. Mesmo com Rui Rio à cabeça do PSD, as primeiras conversas com António Costa deixaram de fora a temática europeia. Nem as tímidas sugestões de Macron para a "bricolage" do euro parecem capazes de gerar um consenso funcional entre Paris e Berlim.

A Europa continua mergulhada nas sombras do erro iniciado em 1992 com a assinatura do Tratado de Maastricht, que lançou as bases da união monetária. A UE prometia através do euro defender a economia europeia contra a globalização, promovendo o emprego, aumentando a convergência entre países e regiões, protegendo e fortalecendo o Estado social. Em 2010, contudo, quando a encruzilhada da crise financeira internacional revelou que uma moeda comum sem união política conduz à desordem e à injustiça, cometeu-se o segundo erro. Em vez de se enfrentar a implosão da banca europeia com uma necessária viragem federal, suportando o euro num orçamento comum e num governo económico europeu, a resposta dada pelo centro-esquerda, com a chanceler Merkel à cabeça, foi assustada, provinciana e oportunista. Uma austeridade punitiva transformou-se no programa hegemónico de um autodesignado diretório europeu. Sem vergonha, até se chamou o FMI e foi imposta com punho de ferro a verdadeira constituição da eurozona, mais conhecida por tratado orçamental. A UE tornou-se mais pobre, mais desigual, menos confiante. O euro, em vez de um fator de proteção do Estado social, acabou por ferir o valor da deliberação política democrática, entregando os indivíduos e os Estados ao novo ídolo da "disciplina de mercado", numa vertigem neoliberal em completa contramão com a propalada e virtuosa economia social de mercado. Os populistas e extremistas que hoje, no entusiasmo da sua ignorância e avidez, querem dar o último passo em frente que separa a UE do abismo são os filhos das promessas quebradas por um centro-esquerda que se deixou enredar nos erros de 1992 e 2010. Para corrigir esses erros que a ameaçam existencialmente, a UE precisaria em 2018 da visão e do vigor combinados de um Clístenes e de um Alexander Hamilton. Contudo, a chanceler Merkel e a promessa Macron são o melhor que podemos apresentar para enfrentar a borrasca que se aproxima. Apetece desembarcar? Impossível. Já estamos há muito no mar alto.

 

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