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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 2 DE FEVEREIRO DE 2018  

Um degelo de inverno na península coreana

Por Javier Solana

Disse Pierre de Coubertin, o fundador dos Jogos Olímpicos modernos: "O mais importante não é ganhar, mas participar." Agora que a Coreia do Norte concordou em participar nos próximos Jogos de Inverno na cidade sul-coreana de Pyeongchang, essa frase assumiu um novo significado.

Ao longo da história dos Jogos Olímpicos modernos tem sido impossível separar a política do desporto. Talvez nem seja desejável. Afinal, um dos principais objetivos dos Jogos é pôr o desporto ao serviço da paz e da dignidade humana.

De um modo geral, o desporto tem desempenhado um papel politicamente construtivo no cenário mundial. No Campeonato Mundial de ténis de mesa de 1971 no Japão, um jogador americano ganhou a toda a equipa chinesa, inaugurando o que ficou conhecido como a "diplomacia do pingue-pongue". Pouco depois, no auge da Revolução Cultural, Mao Tsé-tung convidou a equipa de ténis de mesa dos EUA para ir à China, preparando o caminho para a histórica visita do presidente dos EUA Richard Nixon, em 1972.

No Campeonato Mundial de ténis de mesa de 1991, mais uma vez no Japão, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul formaram uma equipa conjunta que, contra todos os prognósticos, ganhou uma medalha de ouro na competição feminina. A camaradagem desenvolvida pelas jogadoras ajudou-as a vencer a equipa chinesa na final. Por um breve momento, os radiantes coreanos esqueceram as suas divisões.

Na verdade, a Coreia do Sul pode até mesmo dever, pelo menos em parte, a sua democracia moderna aos Jogos Olímpicos. Em 1987, com os Jogos de Seul de 1988 a aproximarem-se rapidamente, os sul-coreanos conseguiram pressionar o regime militar do presidente Chun Doo-hwan a realizar eleições democráticas. Esta foi uma reviravolta impressionante, dado que Chun tinha concebido a candidatura olímpica como uma oportunidade para melhorar a imagem interna e externa da sua ditadura. Sem a aproximação dos Jogos e a pressão internacional que eles trouxeram, a transição democrática da Coreia do Sul talvez não tivesse ocorrido, pelo menos não tão pacífica ou rapidamente como aconteceu.

Mas os Jogos de Seul de 1988 também tiveram um lado sombrio. A Coreia do Norte, incapaz de chegar a um acordo com o Sul sobre como compartilhar o evento, acabou por o boicotar na totalidade. E em 1987, no mesmo ano em que a ditadura de Chun entrou em colapso, um voo da Korean Air foi abatido, provavelmente pelo regime norte-coreano, numa tentativa de interromper as eleições próximas e desencorajar outros países de participar dos Jogos.

No final, os Jogos de 1988 aprofundaram a divisão entre as duas Coreias e o breve momento de triunfo partilhado em 1991 não seria suficiente para reverter a tendência. O Sul continuou a abrir-se ao mundo e o Norte endureceu o isolacionismo - um processo que se intensificou após a dissolução da União Soviética - e prosseguiu o caminho da proliferação nuclear.

Claro que a decisão da Coreia do Norte de encenar um boicote em 1988 não foi uma atitude sem precedentes. Historicamente, muitos países boicotaram os Jogos, ou até os usaram como uma plataforma para promover valores contrários ao espírito olímpico. Esse foi certamente o caso quando o regime de Adolf Hitler recebeu as Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim.

Em 1945, George Orwell, ao olhar retrospetivamente para os Jogos de 1936, observou que "o desporto sério... é a guerra sem o tiroteio". Os Jogos, disse ele, estão "ligados ao surgimento do nacionalismo, isto é, ao lunático hábito moderno de as pessoas se identificarem com grandes unidades de poder e verem tudo em termos de prestígio competitivo".

Orwell não estava muito enganado. Em Pequim 2008, por exemplo, a ligação entre desportos e nacionalismo esteve à vista. Os Jogos foram um sucesso de organização, completada com uma nova e brilhante arquitetura. O facto de a China ter acabado por ganhar mais medalhas de ouro do que qualquer outro país aumentou, sem dúvida, o orgulho nacional. E os protestos contra o tratamento dado ao Tibete pela China durante a passagem da chama olímpica por todo o mundo alimentaram o nacionalismo chinês. Hoje, o orgulho nacional ainda é um foco crucial para o líder político que supervisionou os Jogos de Pequim: o então vice-presidente e agora presidente da China, Xi Jinping.

Da mesma forma, os Jogos Olímpicos de inverno de 2014, em Sochi, ajudaram a dar alento ao regime do presidente russo Vladimir Putin, então em dificuldades. Três dias antes da cerimónia de encerramento, Putin lançou a sua intervenção militar no Leste da Ucrânia e anexou a Crimeia.

Agora, os Jogos estão de regresso à turbulenta península coreana, onde as duas Coreias permanecem formalmente em guerra 65 anos depois de concordarem com um armistício. Antes da recente decisão de o Norte de participar nos Jogos de Pyeongchang, muita gente estava compreensivelmente preocupada com uma repetição de 1988, ou com a hipótese de o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, aproveitar a ocasião para fazer uma exibição de um dos seus espetáculos de força militar. Afinal, foi o que aconteceu no Campeonato do Mundo de 2002, coorganizado pela Coreia do Sul e pelo Japão. No final do torneio, marcado por um desempenho extraordinário da seleção sul-coreana, a Coreia do Norte iniciou uma batalha naval com o Sul.

Felizmente, a atitude sensata e conciliadora do presidente sul-coreano, Moon Jae--in, que Kim pareceu retribuir no seu discurso de Ano Novo, criou um ligeiro degelo. Os esforços do Sul para aliviar as tensões ao adiar os exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos, assim como a decisão do Norte de participar nos Jogos, devem ser bem-vindos. E, de facto, desde então, houve um fluxo constante de boas notícias: os dois países marcharão juntos na cerimónia de abertura e até formarão uma equipa feminina conjunta de hóquei.

Certamente que é preciso questionar sempre os motivos do regime de Kim. No passado, os gestos amigáveis do Norte não levaram a concessões ou progressos significativos em direção à paz. Dado que as duas Coreias marcharam juntas em três Jogos Olímpicos desde 2000, a prudência é aconselhável. Mas devemos resistir ao desejo de sucumbir ao fatalismo e, em vez disso, continuar a apoiar as aberturas da Coreia do Norte.

A ameaça nuclear norte-coreana não pode ser gerida sem negociações. Assim, os Jogos Pyeongchang, que chegam 30 anos após os Jogos de Seul, podem representar a melhor hipótese em muitos anos para dar início ao processo. Esperemos que a viagem dos atletas norte-coreanos de Pyongyang a Pyeongchang dê frutos diplomáticos e que "os Jogos da Paz", como Moon lhes chama, venham a ser lembrados mais pela presença do Norte do que pela contagem final das medalhas.

 

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