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OPINIÃO

DOMINGO 07 DE JANEIRO DE 2018  

Bannon expõe tudo

Por Elizabeth Drew

O livro que acabou de sair sobre Donald Trump e a sua presidência disfuncional (Fire and Fury: Inside the Trump White House) [Fogo e Fúria: Dentro da Casa Branca de Trump] deixou muita gente em Washington em picos. Apesar da ameaça constitucionalmente duvidosa da Casa Branca de tentar proibir o livro, a data de publicação foi antecipada quatro dias. Mas a maior parte do que é divulgado em Fire and Fury, embora profundamente inquietante, não é assim tão surpreendente.

Ainda não está claro como Michael Wolff, o polémico autor do livro, obteve algumas das suas informações, mas presume-se que ele gravou muitas das entrevistas, particularmente aquelas usadas para as longas conversas que se encontram ao longo do livro. O que Wolff conseguiu foi obter citações atribuídas a altos funcionários sobre como o presidente funciona ou não.

Mas o livro diz-nos principalmente o que a maioria dos jornalistas políticos de Washington já sabia: que Trump não tem qualificações para ser presidente e que a Casa Branca é uma zona de alto risco de assessores inexperientes. A única surpresa é que não tenham acontecido mais calamidades, pelo menos até agora.

Uma boa parcela do que foi divulgado antes da publicação do livro diz respeito a uma batalha entre dois dos mais tagarelas, argumentativos e fanfarrões egocêntricos que a política norte-americana já viu: Trump e seu antigo estratega principal Stephen Bannon. No verão de 2016, sem um líder para a sua campanha, Trump nomeou Bannon - um ex--empresário agressivo e desajeitado que era então presidente-executivo da Breitbart News, um site que pregava o nacionalismo branco - diretor da campanha. Bannon estava cheio de grandes ideias sobre o que devia ser uma campanha "populista" de direita.

Em muitos aspetos, no entanto, a campanha ideal de Bannon assemelhava-se muito ao que Trump já dizia e fazia: atrair os operários atacando a imigração dizendo, por exemplo, que iria construir "um grande e bonito muro" ao longo da fronteira com o México, que seria pago pelos mexicanos, e atacando também os acordos comerciais que alegava serem injustos para os EUA. Esses eleitores vieram formar o núcleo da base de apoio a Trump, e o facto de ter sido bem-sucedido na corte que lhes fez, combinado com o incrível fracasso de Hillary Clinton nesse campo, contribui bastante para a explicação de ele ser presidente e ela não.

O problema para Trump é que os cidadãos que ele corteja nunca conseguiram ser a maioria dos eleitores. A sua famosa "base" está bem abaixo dos 40%. Mas Trump e Bannon aparentemente preferiram não pensar nisso.

Trump tem a tendência de culpar os outros pelas suas frustrações, ele nunca é culpado pelos seus fracassos e, inevitavelmente, as culpas caíram sobre Bannon, que se gabava mais do que seria bom para ele sobre o seu poder na Casa Branca e fazia mais declarações do que o que devia. Bannon foi expulso da administração e partiu em agosto. Embora ele e Trump se tenham mantido em contacto, visto em retrospetiva, um corte de relações parecia inevitável.

Trump e Bannon eram como dois homens com excesso de peso a tentar partilhar um único saco-cama. O seu mundo político não era suficientemente grande para os dois. Eles discordaram amargamente sobre quem apoiar na corrida para preencher um assento do Alabama no Senado; mas, a instâncias de Bannon, Trump finalmente apoiou o errático antigo juiz do Supremo Tribunal, Roy Moore, que havia sido afastado da função por duas vezes e que perdeu a corrida. Bannon estava a tentar abanar o poder republicano estabelecido apoiando candidatos igualmente vindos "de fora" nas eleições intercalares deste ano, o que, se fosse bem-sucedido, poderia tornar ainda mais difícil a Trump obter vitórias no Congresso.

Apesar de o negar, foi Trump quem mais ou menos concordou com que fosse dada permissão a Wolff - cuja reputação de ser cáustico com os seus temas Trump presumivelmente conheceria dos seus anos em Nova Iorque -, para entrevistar a equipa da Casa Branca para um livro. Alguns assessores dizem que acreditavam que estavam a falar com Wolff "oficiosamente", o que significaria que não seriam associados publicamente aos comentários que fizeram. Mas, mesmo que isso fosse verdade, não contribuiria muito para acalmar um presidente furioso: eles tinham dito aquelas coisas.

Na opinião de Trump, o grande pecado de Bannon em relação ao livro de Wolff foi ter dito coisas altamente negativas sobre a família do presidente. Trump ficou particularmente enfurecido com a descrição de Bannon de uma reunião, agora famosa, que o seu filho, Donald Jr., e outros altos funcionários da campanha tiveram na Trump Tower, em junho de 2016, com alguns russos que disseram que tinham "material escandaloso" sobre Hillary Clinton. Bannon disse a Wolff que a reunião era uma "traição". Mas, dependendo do que aconteceu realmente naquela reunião, Bannon talvez não estivesse assim tão longe da verdade. (O próprio Trump participou numa reunião a bordo do Air Force One, no regresso da sua segunda viagem presidencial ao estrangeiro, para redigir uma declaração para encobrir o que aconteceu na reunião da Trump Tower.)

Trump também estava furioso por Bannon ter descrito a sua filha favorita, Ivanka, como "burra como um calhau". Wolff também conta que Ivanka e o marido, o conselheiro principal da Casa Branca, Jared Kushner, concordaram que depois do esperado sucesso esmagador na Casa Branca, seria Ivanka quem se candidataria à presidência.

Exacerbando as questões, como é costume dele, Trump afirmou, de facto, que Bannon não teve nada a ver com a sua vitória eleitoral, e que os dois quase nunca falaram pessoalmente. E, como é costume dele, Trump ameaçou processar Bannon. Trump tem um longo historial de ameaçar com ações judiciais sem nunca chegar a apresentá-las, mas mesmo a ameaça pode sair cara ao suposto alvo.

No entanto, a obsessão momentânea com as querelas no campo de Trump não deve obscurecer outras realidades. Por detrás do drama, Trump tem certos objetivos claros, e pessoas bem colocadas no governo e nas agências governamentais que os partilham e que não se deixam distrair pela publicação de uma suculenta narrativa do comportamento do presidente.

Enquanto grande parte de Washington e o seu corpo de imprensa estavam a discutir as últimas revelações, o Departamento de Justiça, que deveria ser de alguma forma independente da Casa Branca, estava a ser transformado num instrumento partidário para perseguir os rancores do presidente. De facto, na semana passada, foi revelado que o Departamento de Justiça estava a reabrir uma investigação sobre a já muito investigada questão dos e-mails de Hillary Clinton. Soube-se também que o FBI iria investigar a Fundação Clinton.

O uso de uma agência governamental para punir o antigo adversário de um presidente lembra o comportamento pelo qual Richard Nixon foi acusado, e sugere uma forma de governo muito diferente da de uma democracia.

Elizabeth Drew é uma colaboradora regular da The New York Review of Books

 

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