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OPINIÃO

SEXTA FEIRA 01 DE NOVEMBRO DE 2017  

Primeiros nomes

Por João Taborda da Gama

Uma homenagem ou uma mera referência a pessoas que morreram tem sempre uma parte em que se destacam as mais marcantes características de quem partiu da perspetiva de quem escreve (a parte homem corajoso), uma parte em que se tenta um ponto de vista mais objetivo sobre o homenageado, no sentido que aquilo que ele deixou para um bem maior (a parte mudou a forma como se faz ciência), e uma parte, que é normalmente aquela que mais impele a homenagear, em que o homenageante se engrandece à custa de quem acaba de nos deixar, contando um episódio em que o morto mais não é do que um pretexto para mostrar como é importante (a parte lembro-me uma vez, depois de umas eleições, de me ter dito). Como Belmiro nunca me disse que eu tinha em mim um potencial gestor de topo nem Zé Pedro me disse nunca que como ninguém eu compreendia a força e a profundidade da música dos Xutos, desde logo porque nunca os conheci, tenho de ficar pela parte sincera da homenagem.

Sobre Belmiro, destaco o empreendedor dentro do empresário; o facto de ter gerido um império de lojas e fábricas com quase absoluta paz social, que lhe valeu o chumbo do Partido Comunista ao voto de pesar, que não pode admitir que o maior dos patrões tenha a menor das lutas; a genuína admiração que se sentia em cada um dos colaboradores com quem me cruzei na vida pessoal ou profissional, de administradores a operários; o modo como planeou e executou a sua sucessão, mas destaco mais do que isso. Belmiro acabou por representar, não sei se alguma vez isso terá sido objetivo seu, um tipo de empresário que não depende do Estado, e que num momento muito sensível da nossa história recente se opôs ao poder do capitalismo de Estado, modelo económico com causas e consequências que só ainda estamos a começar a perceber. Mas Belmiro também dependia do Estado, naquele sentido de depender do estado de coisas, de uma economia em que houvesse poder de compra suficiente para carrinhos cheios no Continente e fins de tarde longos no Colombo (como acabei ontem por fazer, com alguns dos meus filhos, numa tosca forma de homenagem, sem naturalmente dizer nada a ninguém sobre o porquê da escolha do destino de feriado à tarde). O retalho do arroz aos pacotes de minutos são frutos que medram sempre melhor numa democracia que faz crescer as carteiras, uma democracia economicamente aberta, europeia, e que idealmente evite ciclos e contraciclos de austeridade. Mas para esse estado de coisas em Portugal também ele contribuiu, com preços baixos. Ao proporcionar em grande escala, através dos hipermercados, um conjunto de bens essenciais e não só a um conjunto vastíssimo de pessoas, de modo regular e uniforme, Belmiro contribuiu mais para controlar a inflação em Portugal do que os ministros das Finanças todos juntos e mais o FMI.

Belmiro foi ainda dos grandes responsáveis por uma profunda mudança cultural nos hábitos dos portugueses, que passaram a frequentar religiosamente, além dos hipermercados, ou em conjugação com estes, centros comerciais, bons centros comerciais, coisa sempre criticada pela elite tão enjoada que não gosta de ver povo, ou tão rica que tem quem lhe compre as coisas, ou não precisa de poupar, gente que recusa ver que para muitos o ambiente cuidado, controlado, seguro, limpo de um centro comercial é mais e melhor do que vivem diariamente. Um mundo mais urbano.

E se Portugal se tornou um mundo melhor, também ou sobretudo para esses, nestes quarenta anos foi também porque teve a puxar por si os acordes do Zé Pedro na banda sonora da luta eterna contra o quotidiano, uma melodia de esperança a cada derrota, a cada buraco, em cada um daqueles dias em que é preciso remar, remar contra a cidade. Não era a primeira voz (em Submissão, a única que canta, pode ouvir-se uma voz tipicamente punk), nem a segunda (se as vidas tivessem uma segunda voz, para a minha era o Kalú do Xutos que escolhia), nem sequer era a primeira guitarra. Mas era aquele que mais parecia sempre estar a divertir-se no palco, um sorriso e uma silhueta jaggeriana, mas uma vida que merecia ter sido contada como a de Keith Richards em Life, e tinha o olhar mais frágil de todos. Talvez por isso e apesar daquilo seja sinónimo do seu conjunto.

Há muitos muitos anos, os Xutos cantavam “Quando eu morrer/ Não levarei flores pro meu buraco/ Porque eu vou morrer/ De cancro/ E não se dão flores/ A quem morre de cancro”. Belmiro ficou conhecido por ter dito que “a diferença entre o nascer e morrer é um fatinho e um par de sapatos. As pessoas esquecem-se disso”. Belmiro e Zé Pedro conseguiram nunca ser esquecidos, mas conseguiram aquilo que mais gozo deve dar a quem é conhecido, que é ser conhecido pelo primeiro nome, e isso não é por acaso.

 

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