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OPINIÃO

QUINTA FEIRA 30 DE NOVEMBRO DE 2017  

Filhos do 25 de Abril e hey hey, my my

Por Pedro Marques Lopes

1- Esta semana perdemos dois homens que tiveram um papel importante na comunidade. Por isso deixaram marca: Belmiro de Azevedo e Zé Pedro.

Podemos muitas vezes ver as diferenças entre os homens por quem os chora - a família é algo à parte, bem entendido - e, a ser isso verdade, não podíamos estar perante personagens mais díspares. Além disso, as justíssimas homenagens que lhes foram feitas partiram, quase sempre, de pontos de partida distintos. Muito provavelmente, nem um nem outro ficariam satisfeitos por alguém se pôr a descobrir semelhanças entre os dois - apesar de a grandeza vir normalmente acompanhada por uma humildade e abertura de espírito raras e muitas vezes desarmantes.

Zé Pedro e Belmiro foram homens empreendedores, apaixonados pelas suas profissões (do Zé Pedro, de que conheço os gostos pessoais muito melhor pelas suas inúmeras aparições públicas, lembro o entusiasmo adolescente perante tudo o que dizia respeito à música), inovadores, livres e carismáticos. E grandes, grandes criadores de riqueza. Não apenas no sentido do que trouxeram à comunidade em termos de obras, de melhorias para todos, mas até no sentido mais comum de riqueza material.

É verdade que todos os homens e mulheres que conseguem ter a boa relevância destes dois senhores têm sempre alguma coisa em comum, mas neste caso há mais do que isso: eles representam um Portugal novo, um Portugal que nasceu depois do 25 de Abril. Eles são, por razões diferentes, filhos das chamadas conquistas de Abril.

Belmiro de Azevedo conquistou o grupo onde tinha trabalhado ou trabalhava e desenvolveu-o de uma forma que só a liberdade económica pós-Revolução permitiu. A Primavera Marcelista tinha aberto algumas portas a um certo liberalismo económico, mas o nosso país continuava a ser o país do condicionamento industrial (já não em vigor mas em prática), da proibição da Coca-Cola, o paraíso de uma pequena oligarquia económica com tanto de imobilista como de pacóvia. Um país em que os grandes capitalistas eram definidos e protegidos pelo Estado, com objetivos políticos, claro está: a melhor maneira de se manter o poder ou, pelo menos, de controlar aspetos básicos da sociedade. Aliás, ainda estamos longe, muito longe, de nos livrarmos desta relação entre Estado e iniciativa privada - heranças muito pesadas e que levam muito tempo a mudar. Continuamos a ser um país onde o Estado gosta de estar próximo das empresas e onde os grupos económicos berram contra o mesmo Estado ao mesmo tempo que vivem à sua custa.

Seja como for, a Revolução abriu as portas também à liberdade económica e Belmiro de Azevedo não só a aproveitou para construir um grupo económico como sempre fez questão em manter-se longe do Estado. E se era raro um homem de origens humildes obter uma licenciatura no período em que Belmiro a alcançou, ainda muito mais difícil seria - para não dizer impossível - ter feito a obra empresarial que fez no anterior regime e sobretudo se o tentasse sem o patrocínio estatal.

Já o Zé Pedro aproveitou um país que se abria, finalmente, ao mundo. A geração que começou a fazer o Interrail, a ir a concertos ao estrangeiro, a ter acesso a revistas e a discos, a ter a liberdade de se exprimir fora das baias do Estado Novo e das que praticamente impunham outro pensamento nos anos imediatos ao 25 de Abril. Mas, mais importante, o herói do rock and roll português teve público para a sua música e para a sua mensagem: a primeira geração que chegou em massa à escola. Os filhos de uma ainda embrionária classe média urbana que a escola pública já educava e que o Serviço Nacional de Saúde tratava. O Zé Pedro, os Xutos, os GNR e outras bandas - só para referir a música - tinham um público ávido de novidade, disponível para novas experiências. Os filhos das portas que Abril abriu. As do conhecimento, da segurança, dos melhores salários, do acesso à cultura, da livre iniciativa. Essas, sim, as portas que Abril abriu e que começaram a dar frutos quando o Zé Pedro começou a fazer ouvir a sua guitarra meia punk, meia rock and roll.

Já muita gente o disse, mas é uma verdade que vale a pena ser repetida: Portugal fica bem mais pobre sem estes dois homens. Mas a grande obra que deixaram não foi exatamente o grupo económico de ou a alegria e a energia espalhada pelo outro. É, mais do que tudo, as portas que abriram, a liberdade que proporcionaram, a riqueza que geraram, o exemplo que deram. Claro que o patamar a que chegaram exige muito mais do que condições proporcionadoras, muitíssimo mais, é preciso muito talento, coragem, inteligência, carácter, perseverança. Mas para que essas qualidades pudessem ser exprimidas, para que elas dessem os frutos que deram, foi preciso o país mudar muito.

Pouca gente das gerações anteriores à minha tem noção do que isso representa e as mudanças que tiveram de ser feitas para que Belmiros e Zé Pedros acontecessem. O passo que falta e que eles os dois adorariam, estou certo, que fosse dado é que fosse cada vez mais fácil aparecer mais gente como eles. Que o país fosse mais capaz de fazer crescer mais gente assim. Lá chegaremos e eles estarão onde estiverem a aplaudir.

2- O Zé Pedro era-me muito mais próximo. Não que o conhecesse, mas porque ele é um ídolo da minha adolescência e uma figura central da música popular que eu amo e é parte importante da minha vida. Ele era mais do que uma figura do rock and roll, ele era o rock and roll. Excessivo, rebelde, elétrico e amante apaixonado de rock and roll. Um homem maior do que o mundo.

Hey hey, my my Zé Pedro will never die.

 

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