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OPINIÃO

SEGUNDA FEIRA 27 DE NOVEMBRO DE 2017  

Cor de laranja. Não, não é isso. Nem um aviso da meteorologia

Por Ana Sousa Dias

O médico da equipa de ginástica feminina dos EUA, que tem como grande estrela a maravilhosa Simone Biles, admitiu em tribunal ter abusado sexualmente das atletas, três delas com menos de 13 anos. A atriz Uma Thurman conseguiu controlar a raiva e disse cruamente sobre o infame Weinstein: "Fico feliz por isto estar a acontecer a conta-gotas. Não mereces uma bala." Hoje é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres e estas são as últimas notícias de uma torrencial série de denúncias.

É uma violência que surge em diferentes cambiantes de agressividade e com resultados que podem ir do incómodo de estar sentada num autocarro e ser lentamente apertada contra a janela até à escravatura sexual e ao assassínio. Podem dizer que uma coisa não tem nada que ver com a outra, que são distintas as origens de encostos, violações, facadas ou prostituição forçada. A pequena tara, o ciúme desvairado ou o negócio mais cruel, nada que ver?

Mas falo do ponto de vista da mulher, sem psicologia nem criminologia. Para mim, está tudo na mesma coleção de abusos sobre as mulheres e começa na ideia de que se pode impunemente fazer o que passa pela cabeça de outra criatura. Também há crimes sobre rapazes e homens, sabemos todos, mas estou a falar deste tema, e é a um homem que vou buscar uma frase essencial. António Guterres, com um simbólico lenço cor de laranja ao pescoço, ao lado da diretora executiva da UN Women, a sul-africana Phumzile Mlambo-Ngcuka: "A violência sobre as mulheres é fundamentalmente uma questão de poder." A palavra é "empoderamento" e, embora os neologismos literalmente traduzidos me irritem, adoto-a porque não arranjo outra: "Ato ou efeito de dar ou adquirir poder ou mais poder." Porque não é apenas dar, é adquirir, tomar em mãos.

Olho em volta na redação onde trabalho e verifico como a presença feminina mudou desde que comecei no jornalismo há 40 anos. Empowerment também é isto, estar nos lugares antes reservados aos homens e sobreviver às "pequenas coisas", como aquele que dizia palavrões (os jornalistas dizem muitos, faz parte) à espera da minha reação: "Olha, ela não fica corada", exclamava e achava muita graça à sua própria idiotice. Ou os entrevistados que telefonavam a dizer "nunca pensei que conseguisse". Ou os que encaravam um pedido de boleia como uma oferta sexual. Ou aos que nos levavam até um canto sem recuo para literalmente nos agarrarem. Sim, isto acontece às mulheres e em nada se assemelha a qualquer tipo de sedução.

Não há comparação destas "pequenas coisas" com os números avassaladores da violência a nível mundial, números a que podemos chegar em poucos clicks e são tremendos. Mas a arrogância do posso, quero e portanto faço pode escalar se as circunstâncias o facilitarem. Basta pensar nas violações em conflitos étnicos, e não apenas em países longínquos mas aqui ao lado.

Já agora, e porque é quase ignorada a razão da escolha do dia 25 de novembro para a luta pela eliminação da violência sobre as mulheres, tenho uma história para contar, também ela acessível com meia dúzia de clicks. Patria, Minerva e María Teresa, conhecidas como as irmãs Mirabal ou as Borboletas, foram assassinadas no dia 25 de novembro de 1960 a mando de Rafael Trujillo. Eram militantes envolvidas em atividades clandestinas contra a ditadura da República Dominicana e tinham ido visitar os maridos, presos políticos. Trujillo, dono de cadastro por agressões sexuais, estivera muito interessado na jovem Minerva e não gostou de ser rejeitado.

Minerva era formidável e, apesar de ser licenciada em Letras e Filosofia e doutorada em Direito, estava impedida de exercer advocacia. Tinha sido presa, violada e torturada várias vezes, tal como María Teresa. Havia uma quarta irmã, Dedé, que a princípio não se envolveu na luta: precisamente a que não estudou e cujo marido não queria que ela se metesse nessas coisas. Mas a morte de Minerva, María Teresa e Patria levou-a a tornar-se ativista.

A 30 de junho de 1961, sete meses depois da morte das Borboletas, Trujillo foi emboscado e morto num atentado atribuído à CIA. Trujillo tinha-se tornado embaraçoso para a América de John Kennedy, que temia uma revolução idêntica à vizinha ilha de Cuba. Sete tiros acertaram no ditador. Como diria Uma Thurman, ele talvez não merecesse tanta bala.

 

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