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OPINIÃO

DOMINGO 26 DE NOVEMBRO DE 2017  

O dia em que fui importante

Por Inês Tetónio Pereira

Já devia ter aprendido que não podemos deixar passar a oportunidade de dizer às pessoas de quem gostamos e que admiramos que as admiramos e que gostamos delas. Porque há um dia em que elas partem e nós ficamos sem saber se elas sabiam e sem oportunidade de confirmar. Pedro Rolo Duarte gostava de um blogue que fiz e citou-o no seu programa de rádio. Quando ouvi corei sozinha, envergonhada com o elogio e na esperança de que tivesse sido a única ouvinte. Quando temos o Pedro Rolo Duarte a dizer bem de nós ficamos sem saber onde pôr as mãos. Ainda tenho a voz dele gravada a dizer o meu nome. Depois, uns anos depois, quando estou quase a chegar à conclusão de que algures no tempo o desiludi com um dos inúmeros disparates que terei escrito ou pela minha falta de talento que finalmente terá descoberto, ele convidou-me para o seu programa na Antena 1, Hotel Babilónia. Eu, a ser entrevistada pelo Pedro Rolo Duarte para falar sobre filhos, os livros, o jornalismo, a minha aventura no Parlamento, sobre mim. É nestas alturas que percebemos que o mundo pode girar ao contrário. Mas não acusei o toque. Entrei no estúdio como se merecesse estar ali, como se tivesse de facto o talento que justificasse ser entrevistada por Pedro Rolo Duarte. Passei a entrevista a tentar surpreendê-lo, queria dizer qualquer coisa que o fizesse sorrir. Nada. Ele ria-se sempre, piscava o olho e eu não disse nada inteligente, claro. A meio da entrevista pensei: "No fim tenho de lhe dizer tudo o que penso dele e o quanto significa para mim estar aqui", para logo a seguir achar que dizer tudo isso seria foleiro e despropositado. Voltei à pose e não disse. No fim quem agradeceu foi ele e eu, pequenina, quase ridícula, só agradeci. Apenas isso. Não disse ao Pedro que o tinha acompanhado à distância desde a primeira vez que o li, que O Independente que lia quando andava no liceu era o dele, que também cresci na Praia Grande - e que adorei a crónica que ele escreveu sobre o seu filho que durante um verão foi ali salva-vidas -, que o admirava por tanta coisa mas principalmente pelo lado positivo e pela beleza que descortinava em tudo: por gostar tanto de dizer bem.

Já devia ter aprendido que não se deve deixar passar a oportunidade de dizer às pessoas que gostamos delas, porque só assim conseguimos deixá-las partir em paz. Sem estrondo e sem mágoa.

 

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