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EDITORIAL

TERÇA FEIRA 03 DE OUTUBRO DE 2017  

Sim, a Catalunha também é connosco

Por Pedro Filipe Soares

Quando as forças policiais reprimem um povo para abafar a democracia, isso é connosco? Quando o direito ao voto é recusado e a violência é o recurso para abafar a vontade de um povo, isso é connosco?

Se a liberdade de associação é negada e a sede de um partido político é cercada por forças policiais, isso é connosco? Se a polícia apreende propaganda eleitoral e faz buscas a tipografias e encerra páginas web, isso é connosco?

E se um movimento popular pacífico for reprimido por uma violência que provoca centenas de feridos e pelo menos um morto, isso é connosco? Quando a liberdade de expressão é suprimida, direitos cívicos e políticos são contrariados, isso é connosco?

A rusga a jornais e órgãos de comunicação e ameaças que roçam a censura, são connosco? As intimidações a membros de governo, autarcas e funcionários públicos, são connosco?

As perguntas que coloquei não podem ter quaisquer dúvidas ou veleidades quando respondidas por democratas: sim, é connosco! Aconteça onde acontecer, com quem acontecer, não há democrata que possa calar perante os atropelos aos direitos fundamentais. Se a liberdade e a democracia estão em causa, sim, é connosco!

É por isso que o debate sobre a situação catalã é essencial! O que está a acontecer na Catalunha não é apenas uma questão interna do estado espanhol exatamente porque são direitos fundamentais que estão a ser colocados em causa. Dizerem para desviarmos o olhar, mudarmos de canal de televisão quando passam as notícias da repressão ou ignorarmos a violência de estado, só é possível para quem coloca também na prateleira a sua consciência. Não o consigo compreender.

Um argumento que se repete é que Espanha é o nosso principal parceiro comercial e que temos de avaliar o que se passa na Catalunha com cuidado, devido à proximidade geográfica que temos. O direito ao voto só pode ser defendido à distância de um oceano ou de um continente? Ou deve ser negociado como uma mercadoria? Desculpas de quem confunde princípios com retórica.

A constituição portuguesa diz que um dos princípios das nossas relações internacionais é o do reconhecimento dos povos à autodeterminação e à independência. Lembramo-nos como o defendemos para Timor, como saímos à rua face à violência que matou milhares e como foi possível ganhar essa luta. Por que razão nos dizem agora para ignorar a nossa constituição e defender a repressão que Madrid está a exercer sobre o povo catalão?

O governo de Rajoy agita a bandeira da legalidade para agir na ilegalidade. Quem já o denunciou foi a Amnistia Internacional ou a ONU. O governo português vai continuar a fingir não ver a violência? É que neste caso o silêncio é cúmplice da supressão de direitos fundamentais. Como dizia Manuel Alegre, "não podemos criticar a Polónia, a Hungria e a Turquia e assobiar para o lado e dizer que o problema da Catalunha é um problema interno de Espanha".

O governo catalão anunciou a declaração da independência para o início da próxima semana. De Madrid, ameaça-se com o exército e a entrada de tanques em Barcelona. Já escrevia Brecht que "do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem". É essa a responsabilidade de Rajoy e da elite espanhola que ao longo do tempo negaram o aprofundar da autonomia catalã e empurraram a Catalunha para este desfecho.

Nas ruas da Catalunha há a consciência que se vivem dias históricos. Provavelmente assistimos ao principal acontecimento do séc. XXI na península ibérica. Quando os jovens saem às ruas gritando pela democracia, pela república, cobertos com a bandeira catalã, estão a forjar nesta luta a consciência política de toda uma geração. São a garantia que a luta pela independência não irá esmorecer, bem pelo contrário.

Assistiremos à entrada de tanques na Catalunha na próxima semana? Serão os membros do governo catalão presos logo após a declaração de independência? Irá Rajoy criar novos mártires na Catalunha com estas prisões? Saberemos em breve.

A Catalunha é uma nação, com uma identidade, língua e cultura próprias. Respeitemos o seu direito a decidir e sejamos coerentes com a nossa própria constituição. Afinal de contas, ela também cheira aos cravos que foram distribuídos em vários locais de voto do referendo catalão.

 

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