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EDITORIAL

SEXTA FEIRA 29 DE SETEMBRO DE 2017  

Camilo Pessanha: Poeta que venceu o esquecimento

Por José Jorge Letria

Publicou a sua única recolha poética seis anos antes de morrer em Macau com 58 anos, em março de 1926. Não fora o empenho entusiástico nesse processo de publicação de Ana de Castro Osório, escritora, republicana e grande activista cívica, e talvez hoje não estivéssemos a celebrar a vida e a obra do poeta nascido em Coimbra a 7 de Setembro de 1867, ou seja, há 150 anos.

Num tempo em que tudo se celebra e comemora, até os 25, os 30, os 40 e os 50 anos de carreiras artísticas e culturais tantas vezes mal cumpridas, muito poucos se terão lembrado de recordar Camilo Pessanha e a importância da sua obra poética num país que, mesmo reivindicando a glória de ser de poetas, tantas vezes se esquece da voz dos seus maiores poetas, indo depois carpir mágoas para a beira das suas sepulturas, mesmo que não passem de secas e tristes valas comuns.

Camilo Pessanha viveu um longo e assumido auto-exílio em Macau, onde escreveu, onde foi, magistrado e professor de liceu e onde não quis fazer do seu talentoso e apurado labor poético um marco da sua glória pessoal. Em larga medida terá desejado morrer esquecido numa terra longínqua em que se integrou e de que fez o espaço de celebração e de memória em que muitas vezes se perdeu e encontrou.

Entre 1894 e 1915 regressou algumas vezes a Portugal para tratar de uma saúde débil. Sabe-se que numa dessas visitas foi apresentado a Fernando Pessoa, que era apreciador da sua poesia, tal como Mário de Sá-Carneiro.

Foi Ana de Castro Osório, sua grande amiga, que deu um contributo decisivo para a publicação de Clepsidra em 1920. Foi João de Castro Osório, seu filho, que ampliou a obra inicial acrescentando-lhe poemas que entretanto foram encontrados. Sem este empenho, o poeta Camilo Pessanha teria caído num inevitável esquecimento, sendo, tal como Cesário Verde e António Nobre, poeta de um livro único que, na realidade, muito pouco fez para ser publicado.

Sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo em Macau, Camilo Pessanha foi um opiómano que, fazendo-nos recordar as páginas brilhantes de Ópio, de Jean Cocteau, foi desistindo de si como poeta à medida que transformava o consumo diário daquela droga poderosa num refúgio e numa ausência que o foi destruindo.

O primeiro acto público de celebração da importância da obra do poeta foi a atribuição do seu nome, em 1949, a uma rua de Lisboa, perto da Avenida da Igreja, em Alvalade.

Camilo Pessanha, poeta de obra escassa e luminosa, publicou artigos nas revistas Azul, Atlântida e Contemporânea.

Leitor de grandes poetas, Camilo Pessanha muito admirava Charles Baudelaire e Stephane Mallarmé, que o levou, no quadro de uma estética depurada e cantante, a usar a sugestão e a metáfora para evitar nomear directa e objectivamente aquilo que via e sentia.

Identificado com a corrente do simbolismo, Camilo Pessanha antecipou tendências importantes do modernismo poético do século XX.

Deixou poemas magníficos como este que, sob o título Floriram por Engano as Rosas Bravas, diz: "Floriram por engano as rosas bravas/no Inverno: veio o vento desfilhá-las/ Em que cismas meu bem ? Porque me calas/As vozes que há pouco me enganavas ?/ Castelos doidos /Tão cedo caístes !.../Onde vamos, alheio o pensamento,/ De mãos dadas ? Teus olhos que um momento/Perscrutaram nos meus , como vão tristes !"

Tal como Luís de Camões, Camilo Pessanha viveu no Oriente tempo bastante para fazer dele não só uma parte da sua geografia íntima mas também uma parte marcante da cadência enleante da sua própria escrita.

Nascido há 150, foi essencialmente um poeta que muito influenciou a poesia do século passado, figurando em todas as antologias representativas da poesia portuguesa.

Embora tenha sido professor e tenha assumido responsabilidades públicas como magistrado e conservador do registo predial em Macau, Camilo Pessanha existiu e cumpriu-se naquilo que escreveu e que em grande parte deixou adiado e quase esquecido.

Voltar a lê-lo e celebrar a qualidade tocante da sua obra é uma maneira justa de evitar que o esquecimento silencie o que ele não fez questão de tornar audível no seu tempo.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

 

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