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EDITORIAL

DOMINGO 10 DE SETEMBRO DE 2017  

Música de embalar

Por João Taborda da Gama

Havia lá em casa um LP do Chico Buarque, juntos e ao vivo, com Caetano Veloso. Havia outros discos brasileiros na coleção dos meus pais (Elis Regina, Joana, Maria Bethânia), mas o único que ouvia repetidamente era este. E não sei porquê era um disco do Chico, não dos dois. Quarenta e cinco anos depois, Chico Buarque está apaixonado, diz-lhe que se o coração ou capricho dela exigir deixa a mulher e os filhos para a seguir, de joelhos. E mal Chico se ajoelhou, começou a levar. Que a música era machista e mais isto e aquilo. Mas felizmente, da última vez que vi, a música ainda existia no Spotify, não tinha sido retirada por recomendação de ninguém. Neste caso tem a vantagem dupla de se poder ouvir uma boa música, com uma boa letra, e refletir sobre um caso extremo de policiamento de costumes, sobre o excesso das coisas e as coisas do excesso. Censurar música é ainda mais perverso do que censurar texto ou bonecos para pintar. A caravana passa. Caravanas é o nome do álbum de Chico, mas também de uma música. Quem me chamou a atenção para a letra da música com o nome do álbum foi o meu amigo M., que presta sempre muita atenção nas letras, conhece todas, e faz o favor de avisar ouvidos preguiçosos, desatentos.

Caravanas conta a história dos meninos da periferia, das favelas, que chegam à praia de Copacabana num dia de sol azul, e o modo como são vistos e olhados pela elite urbana, como terroristas islâmicos, armados de adagas e granadas. A melhoria das condições de mobilidade na cidade aumentou as queixas clássicas, e na música, ou melhor na letra, gritam que voltem para as favelas, para Benguela e para a Guiné, esses jovens que ainda por cima ouvem musica diferente, ruim, o funk.

Aqui no Brasil fiquei em casa de amigos, e os filhos deles, a L. e o K., de nove e dez anos, ensinaram-me muitas coisas. Quando for grande, a L. quer ser arquiteta, como eu. E o K. quer ser DJ, também como eu. Não como eu agora, mas como eu agora quero ser quando for grande. Com a idade deles não queria ser nada disso, com a idade deles, se a memória não me falha, e nestas coisas não falha, estava a deixar de ser arqueólogo para iniciar uma carreira de gestor de fortunas. A arqueologia era coisa que metia muita data, muita história, e percebi depressa que a vida é breve para perceber tudo o que se passa na pessoa que beijamos à nossa frente, quanto mais numa civilização que pisamos debaixo dos pés. A gestão de fortunas veio-me por via do Wall Street, um filme mais profundo do que parece, com o Michael Douglas.

O K., que quer ser DJ, como eu, gosta de funk, como eu, e gostou muito de saber que em Portugal também ouvimos funk. Funk funk, funk carioca, bem entendido, não os canónicos James Brown ou Prince. MC Kevinho, Anitta com dois tês, MC G15 e outros mais proibidão. Um dos funks que o K. me contou tem uma letra simples. Começa com "Nunca mais eu vou dormir", repetido muitas vezes. É um tema que gosto muito. Fiz as contas. Se dormisse menos um quarto de hora por noite, nos quinze mil dias que me restam, se viver até à média de vida (e nisto dos dias é dos poucos lados onde viver e média calham bem na mesma frase) ganhava trinta e nove dias. Trinta e nove que na verdade são cinquenta e cinco, porque a unidade relevante de dias é o DA, o dia-acordado. Dormindo sete horas por noite, fica-se com um DA de dezassete horas. Aqueles quartos de hora todos somados, e divididos pelos DA, dá quase dois meses de vida. Dois meses de vida, sim, a não ser que se considere vida aquelas horas deitados inertes, na pior das hipóteses entre roncos e fios de saliva entre o canto da boca e a almofada. Claro, dormir fundamental, regeneração das células, o tecido muscular cresce, mas é um quarto de hora de um lado da balança, do outro dois meses de vida acordada. Esta ideia, já agora, veio-me enquanto lia a biografia de Pedro Arrupe, o antigo superior dos Jesuítas que vivia em Hiroxima quando caiu a bomba, e dormia muito pouco para poder fazer mais daquilo que era preciso fazer.

Voltando ao funk do "Nunca mais eu vou dormir", do João Brasil, continua com o cantor a perguntar: "Que é isso?" Com a resposta: Michael Douglas, que é também o título da canção. Podia tratar-se de uma homenagem ao velho lobo de Wall Street, mas não. Michael Douglas é um dos nomes da metilenodioximetanfetamina, que os leitores em casa conhecem por ecstasy, ou MDMA, ou MD, MD, lá está, Michael Douglas. Mas pode ser só um nome, só um ritmo, só uma ideia. Todos os jovens que ouvem este funk vão consumir MD por causalidade sinfónica? Não me parece.

A culpa nunca é da música. As músicas são como as leis, oscilam entre um mero ritual, para dizer que existem, e um ponto de partida de infinitos significados, de sentidos. Até de sentido inverso. A L. mostrou-me os youtubers brasileiros a falar sobre as letras escondidas nas canções ouvidas de trás para a frente, dos Beatles, dos Eagles. Coisas de que já antes se falava, mas que agora se pode ver e ouvir no YouTube. Será que eu tinha dormido alguma hora se houvesse YouTube quando tinha dez anos? Não sei. Mas sei que não teria ouvido tantas e tantas vezes o LP que os meus pais tinham lá em casa, do Chico e do Caetano, juntos e ao vivo. Mas saberia tantas outras coisas.

 

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