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EDITORIAL

QUARTA FEIRA 6 DE SETEMBRO DE 2017  

As claques dos partidos

Por Nuno Garoupa

1. A tragédia dos incêndios mereceu a atenção do Financial Times na semana passada. Segundo este prestigiado jornal, o laxismo, a incompetência e a negligência dos últimos vinte ou trinta anos explicam as razões estruturais da tragédia. Esta conclusão repete-se na imprensa internacional, da direita à esquerda, do Guardian ao The New York Times, do El País ao El Mundo. Quem siga atentamente a realidade portuguesa com base nestes jornais, observando o consenso generalizado, diria que a discussão, hoje, versa como responsabilizar os negligentes das três últimas décadas e como evitar mais do mesmo no futuro. Diria, mas estaria profundamente errado. A discussão, como sempre, é esquerda/direita, Costa/Passos, a culpa é dos teus/os meus não são culpados de nada, teu SIRESP mau/meu SIRESP bom e assim por diante. Excelente trabalho das claques. Cumprindo a sua função. Transformar qualquer debate nacional numa dialética das duas claques. Assim ocupa-se o espaço público de insultos e inutilidades sem qualquer conteúdo programático. Assim evita-se apurar responsabilidades políticas (que envolvem todos os partidos de uma forma ou de outra). Assim fica tudo exatamente na mesma, que é, aliás, o princípio estruturante do reformismo português - mexer no acessório para que o essencial possa prosseguir sem grande sobressalto.

2. As claques nas redes sociais são o agitprop do século XXI. Mas notam-se desenvolvimentos. A tradição diz que primeiro era a ideologia, seguia-se programa e só depois o agitprop como instrumento de propaganda para disseminar a ideologia e o programa. Com as claques, começamos a ter primeiro o agitprop, talvez depois o programa, a ideologia não há. Com a esquerda, vimos isso com a recente polémica da Porto Editora. Iniciada pela sua claque nas redes sociais, a medida não faz parte de qualquer programa estruturado sobre a igualdade de género e muito menos obedece a qualquer ambição assumida e sufragada de engenharia social. Apenas agitprop virtual, do qual os partidos da esquerda e, em particular, o governo foram a reboque. Com a direita, já tinha sido o triste episódio dos suicídios em Pedrógão Grande (o líder da oposição excedeu-se porque, dizem fontes oficiosas, andava muito pressionado pela sua claque para ser mais duro com o "usurpador"). Agora foi a imigração e a segurança. O PSD nada efetivo fez sobre a dita lei (nem Tribunal Constitucional, nem Provedor de Justiça, nem nenhum dos mecanismos legais à sua disposição). Na Assembleia, votou contra na generalidade, é verdade. Mas já na especialidade foi uma confusão pegada. Mas a reboque do agitprop lá veio o tema. Curiosamente, tanto o PSD como o governo, quando pressionados pelo completo oportunismo da sua conversa, refugiaram-se em pareceres técnicos que, na melhor tradição de uma administração pública aberta e transparente, ninguém pode ver ou consultar. O agitprop dos partidos deixa, pouco a pouco, de ser a propaganda do programa para se tornar o próprio programa dos partidos. É o que acontece quando a produção de ideias políticas está em graus mínimos.

3. E, falando na produção de ideias políticas, aguardava com grande expectativa a anunciada intervenção de Cavaco Silva. Como referência do PSD e depois de quase 40 anos na política, tinha a certeza de que ia surpreender a opinião pública fazendo aquilo que se espera de um grande líder e de uma personagem marcante da democracia portuguesa. Certamente ia anunciar a Fundação Cavaco Silva, uma instituição congénere à Fundação Konrad Adenauer ou à FAES de Aznar. Com um sólido financiamento totalmente privado (sem ir buscar dinheiro aos contribuintes como fez a Fundação Mário Soares ou a Bolsa D. Luís da Cunha de Jorge Sampaio), com um ambicioso e sólido programa científico e cultural para promover a reflexão e a produção de políticas públicas na sua área política, a nova Fundação Cavaco Silva seria o exemplo invejável. Consequente com o seu discurso político e académico, ao criar a nova instituição, Cavaco Silva iria promover o desenvolvimento do nosso país e fomentar a continuidade ideológica do seu legado político, através do recrutamento de quadros envolvidos naquilo que seria o melhor think tank que alguma vez existiu em Portugal. Na minha inocência, afinal, enganei-me! Inesperadamente, Cavaco Silva optou por um discurso de claque para se reconciliar com a sua claque, apelando ao voto no PSD nas próximas eleições autárquicas. Está evidentemente no seu direito. Mas não tem qualquer utilidade para o futuro de Portugal ou do PSD.

4. Já sobre as eleições autárquicas, tivemos o primeiro debate dos candidatos em Lisboa. Os cinco habituais, porque os outros não existem. E não existem porque só debatem os partidos com vereadores atualmente? Não, pois o BE estava lá e não tem vereadores. Terá sido, então, a representação na Assembleia Municipal o critério? Não, porque não estava lá o PAN. Portanto, o critério foi aquele que interessa sempre - os cinco partidos incumbentes e o resto não existe, não interessa, é um voto perdido, esqueçam.

Declaração de interesses - na atual conjuntura, acreditando que o regime só pode mudar alguma coisa com mais partidos representados nas instituições políticas, reduzindo efetivamente o poder dos partidos incumbentes, fosse eu eleitor do concelho de Lisboa, votaria na candidata do PAN, Inês Sousa Real.

 

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