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EDITORIAL

TERÇA FEIRA 5 DE SETEMBRO DE 2017  

O vício dos emigrantes

Por Ana Rita Guerra

Os carros com matrícula francesa que apareciam lá na aldeia em agosto vinham sempre cheios de gente a falar um português esquisito. Vi muito revirar de olhos quando os mais pequenos trocavam o género da mesa ou da cadeira e o pai, emigrado desde os tempos da outra senhora, dizia que vinham de "vacances" por duas semanas.

Tivemos sempre esta relação estranha com os nossos emigrantes. As saudades e o fado de os ter fora conviviam com a implicância e a ponta de inveja pelo sotaque atravessado e os carrões do estrangeiro. No final de agosto, ficava-se a acenar a quem voltava a partir, entre o mistério de saber como se deixa a nossa terra e a curiosidade de ir ver o que há lá fora de tão diferente. As distâncias eram tão longas e as fronteiras tão assustadoras. Partir era difícil, mas mais ainda era voltar. E, no entanto, nunca vi emigrante português que não voltasse sempre, todos os anos, religiosamente, para ver se as estradas esburacadas estavam no sítio e se o pão com manteiga sabia ao mesmo. Mesmo que lhe picassem o miolo por causa do sotaque atravessado ou das palavras esquecidas. Mesmo que se fartasse rapidamente das queixas e lamúrias que fazem parte do ADN nacional.

E foi para este emigrante, o que em vez de se pôr a banhos em Varadero regressa sempre à pátria nos meses de verão, que circulou por aí uma campanha inenarrável nas redes sociais. A mensagem mostra o quão difícil é compreender a condição de emigrante: "Se és português, fala português." Uma alfinetada a quem se esquece como se diz isto ou aquilo, a quem inventa palavras, a quem começa uma frase em português e a termina na língua que se habituou a falar todos os dias.

É possível que as calinadas dos emigrantes firam de morte os ouvidos mais sensíveis, mas estes recados não são mais que sobranceria de rés-do-chão, enraizada na perceção errada de que o emigrante vem a falar esquisito porque se sente mais do que os outros.

Regressar a Portugal depois de algum tempo fora é um exercício de redescoberta - do país, das pessoas, do coloquialismo, das ideias. Há em nós uma "portugalidade" dormente que reconhecemos quando voltamos à base. Mas o quotidiano recente sobrepõe-se a décadas de criação. Verifiquei-o eu assim que aterrei em Portugal para passar o querido mês de agosto na pátria. São os automatismos, esses patifes, que fazem soltar um "I"m sorry" em vez de "desculpe" quando se vai de encontro a alguém, ou um "excuse me" antes de pedir uma informação na estação de metro. São os hábitos recentes que justificam a piroseira de pedir um "decaff tall" em vez de um descafeinado abatanado. É a vassoura do tempo que desaparece completamente com a memória de certos pormenores inúteis, como o facto de o semáforo para os peões dar luz verde e não branca quando abre. "Como é que eu me esqueci disto?", pergunta-se, enquanto os amigos se agarram à barriga, a hiperventilar, em ataques de riso sucessivos.

"Se és português, fala português", dizem aqueles que não sabem que os filhos já nascidos na América vestem a camisola da seleção antes de saberem o que é o futebol, esforçando-se por falar um português partido, macarrónico, do qual têm imenso orgulho - e imensa vergonha por não falarem melhor. Conheci segundas e terceiras gerações de lusodescendentes que se sentem mais portugueses do que americanos, que bebem Super Bock no café português lá do sítio, que fazem parte das bandas filarmónicas e cantam Amália de cor. Descendentes que não descansam enquanto não tiram o passaporte português. Que sabem que não são bem portugueses nem são bem americanos, e que isso é uma sorte tremenda, porque pertencem aos dois.

Se és português, marimba-te para o que dizem os que odeiam emigrantes, odeiam turistas, odeiam americanos, odeiam o que vem de fora e também o que têm cá dentro. Na hora de embarcar, deixando para trás esta terra que nos consola a alma, leva essa certeza que ninguém poderá abalar: hás de voltar sempre, como a um vício, para ver se as estradas esburacadas estão no sítio, e se o pão com manteiga ainda sabe ao mesmo.

 

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