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EDITORIAL

QUINTA FEIRA 20 DE ABRIL DE 2107  

Bielorrússia, Roménia, Somália. Os repórteres estavam lá

Por Ana Sousa Dias

Artem, 18 anos, 18,5 quilos; Nikita, 19 anos, 13,8 quilos; Vadim, 13 anos, 13,8 quilos; Ilona, 23 anos, 15 quilos, Artem, 27 anos, 17 quilos; Vika, 19 anos, 14,5 quilos; Valeriya, 29 anos, 14 quilos. Esta é a mais sucinta descrição possível de alguns dos cem jovens encontrados em orfanatos para deficientes na Bielorrússia, uma história que lembra o caso da Roménia nos anos 1990. Os diretores foram despedidos, uma investigação está a decorrer e, aparentemente, estão a ser tomadas medidas para melhorar as condições.

Alertado por uma pediatra de uma das instituições, que anunciou um torneio desportivo para recolher fundos para adquirir suplementos alimentares, o jornal online Imena, de Minsk, denunciou a situação. As imagens são terríveis, a tal ponto que o britânico The Guardian, na notícia que publicou na quinta-feira, dizia que algumas são impublicáveis. Mas no site Imena [nomes, em português] lá estão as fotografias, num trabalho datado de meados de outubro do ano passado, e é realmente doloroso vê-las. Fazem lembrar os sobreviventes dos campos de concentração no fim da guerra, mas em salas fofinhas com cortinas floridas e desenhos nas paredes. Num texto assinado por Katerina Sinyuk, com a tradução possível através do Google, percebe-se como o caso chegou ao jornal e que justificações são dadas pelos responsáveis. Que são deficientes profundos, incapazes fisicamente de metabolizar a alimentação normal. Que precisam de suplementos de alto teor calórico, com uma sonda, mas o orçamento só permite alimentação normal. Que foram quase todos abandonados à nascença. Que não têm futuro, não há nada a fazer, têm deficiências profundas, paralisia cerebral. Que não há pessoal especializado para tratá-los. Que não há equipamento para avaliar qual a alimentação adequada. E percebe-se que há por trás uma daquelas encrencas burocráticas que podem arrastar-se anos e anos: a tutela é do Ministério da Saúde ou da Educação? Precisam de professores ou de médicos, enfermeiros e terapeutas?

A reportagem conta também o que foi acontecendo depois de denunciada a situação. Foram angariados donativos. Descobriu-se que na Federação de Biatlo existia uma máquina que permitia fazer a avaliação das necessidades de cada criança e um médico desta organização foi destacado para trabalhar com elas. Nas imagens, as crianças esquálidas estão agora com médicos que tentam distraí-las para não terem medo da máscara azul que é preciso aplicar. Finalmente, conclui-se que é fundamental que o Estado dê dinheiro para comprar os suplementos e garantir acompanhamento permanente. "Estas crianças já passaram o ponto de não retorno", avisa a diretora de um hospital pediátrico.

Estava a ler estas notícias e enviei o link do The Guardian para o Alfredo Cunha, amigo de longa data e de muitos trabalhos, que fotografou em 1991 os orfanatos da Roménia. Minutos depois, o telefone tocou e era ele. Visto o que te mandei? Não vi nada, estou no comboio (coincidências que sempre nos espantam). É uma história de orfanatos na Bielorrússia. Tal como o Guardian omitiu as fotos, eu não posso escrever o que ele respondeu.

A questão é que o repórter estava lá, ao contrário do que acontecia naquela velha rubrica do Diário Popular, em que uma ilustração substituía a fotografia. Estava na Roménia em 1991, com uma missão da AMI, e lembro-me de ele contar como disparava a máquina sem parar porque não conseguia olhar para as crianças sem a lente no meio. E isso remeteu-me para a exposição que está até à próxima terça-feira na Cordoaria Nacional, e a data não é uma coincidência: 25 de Abril, aquele dia em que o repórter esteve lá, no Terreiro do Paço e no Largo do Carmo, a fotografar para O Século.

Na exposição, com quase 500 imagens, percebe-se que ele estava lá, no lugar da reportagem, ao longo de mais de 40 anos. Nas cidades, nas aldeias, nas fábricas, nas procissões, nas festas e nos festivais. De novo com a AMI, esteve nos últimos anos nos locais mais terríveis do mundo, a registar a guerra, a fome, as doenças. Há poucos dias veio da Índia, onde vive uma das filhas, e encheu o Facebook de fotografias de pessoas, como sempre são as fotografias dele - vejam o livro sobre os peregrinos de Fátima, com um belíssimo texto de António Marujo.

A notícia sobre os orfanatos da Bielorrússia foi manchete do The Guardian algumas horas, substituída por uma reportagem sobre a fome na Somália, onde a seca, a cólera e outras doenças ameaçam seis milhões de pessoas. É apenas um elo da cadeia que se espalha por milhares de quilómetros, do Nordeste da Nigéria ao Sudão do Sul e ao Iémen: mais de 20 milhões de pessoas em risco. A maior crise desde a criação das Nações Unidas, em 1945, diz o jornalista Jason Burk, na reportagem sobre os refugiados de Baiboa, Somália, século XXI.

 

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