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EDITORIAL

QUARTA FEIRA 19 DE ABRIL DE 2107  

Os muçulmanos não têm de pedir desculpa

Por Leonídio Paulo Ferreira

Comecei a contar os países islâmicos onde já estive, na maior parte dos casos em reportagem para o DN, e cheguei a uma dezena. Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito, Jordânia, Iraque e Bahrein, todos árabes, mas também Turquia, Afeganistão e Paquistão. E ainda posso acrescentar à minha lista vários países que não tendo maioria muçulmana têm fortes minorias de seguidores do islão, seja Israel e 20% da sua população, seja a Índia e os seus 200 milhões que seguem a religião de Maomé. Isto para dizer que já vi muitos muçulmanos, já estive com eles, conversei com eles, comi com eles. Alguns até são portugueses ou vivem cá e sei como sofrem por terem sempre de se estar a desculpar (ou desculpabilizar) por causa de uns loucos que matam e se matam em nome do islão. Como este Karim Cheurfi agora em França, que disparou sobre polícias e acabou abatido.

A França, que tem cinco milhões de muçulmanos, tem também talvez a melhor escola de islamólogos. Gosto especialmente de ler Olivier Roy, que há muito estuda o fenómeno do terrorismo praticado em nome do islão. Tem escrito ele que esta lógica do terrorista suicida é recente, talvez uns 20 anos. E também estúpida, além de contraproducente. Que ideologia usa só uma vez os seus simpatizantes? Que grupo armado parte para a guerra já com certeza de regressar sem combatentes? Que base para obter resultados tem uma organização como o Estado Islâmico que faz do martírio a regra?

Quem já leu o Alcorão sabe que pode nele encontrar incentivo a atacar o outro e também certa apologia do martírio. Mas há suratas que falam de compaixão e realçam o valor da vida. Não vale uma leitura seletiva, que sirva apenas para justificar o injustificável. Aliás, e aqui volto àquilo que tem estudado Roy, muitos dos terroristas recentes nunca foram estudiosos do Alcorão e uma análise à biografia dessa gente, sobretudo os que atacam na Europa e nela nasceram, mostra que frequentavam mais bares do que mesquitas.

O terrorista de quinta-feira em Paris tinha o cadastro cheio de crimes, uns pequenos, outros tão graves como disparar sobre carros da polícia, mas apesar das raízes magrebinas terá sido só na prisão que descobriu a religião, e logo de uma forma errada. Há quem, perante a vaga de terror, repudie a chavão de que o islão é uma religião de paz, mas certamente não é uma religião de guerra. Pelo menos será tão de paz e guerra como outras, basta pensar nas Guerras de Religião que assolaram a Europa opondo católicos e protestantes ou ainda há poucos anos o conflito entre os cingaleses budistas e os tâmiles hindus. E quem quiser repescar a tese do Choque de Civilizações do americano Samuel Huntington, que mostrava o islão hoje em conflito com quase todas as outras religiões, pense bem se isso não tem que ver com a localização dos países numa faixa que vai de Marrocos à Indonésia e na quantidade de ex-fronteiras coloniais mal traçadas.

Voltando a Roy, este fala não da radicalização do islão (os 1500 milhões de muçulmanos só querem viver a sua vida e defendo que no Ocidente se integrem na sociedade tal qual ela é) mas da islamização do radicalismo. E nota que 25% dos jihadistas são convertidos, logo pouco justificáveis com a alegada revolta pelo sofrimento da comunidade muçulmana às mãos de déspotas apoiados pelo Ocidente. Mas fica no ar uma espinhosa questão: que tem o islão que tanto atraia esta gente?

Volto aos muçulmanos que conheci e conheço. É de uma tremenda injustiça associá-los ao terrorismo, até porque fosse no 11 de Setembro em Nova Iorque ou no Bataclan em Paris, costumam estar entre as vítimas, mais ainda quando os jihadistas se fazem explodir em Damasco, Bagdad ou Islamabad.

 

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