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EDITORIAL

QUARTA FEIRA 05 DE ABRIL DE 2016  

E agora, Trump?

Por Bernardo Pires de Lima

Eu não gosto nada de Assad, mas ele está a matar o ISIS." Foi assim que Donald Trump se referiu ao presidente sírio durante a campanha eleitoral, três anos após ter desincentivado publicamente Obama a intervir na Síria depois de Assad ter gaseado 1400 civis de uma assentada, dizendo então que o presidente americano precisava de uma autorização do Congresso para usar a força. Enfim, a política é o que é e o senhor Trump não é o primeiro nem será o último dos cínicos. Nem mesmo dos incoerentes, dos imprevisíveis ou dos mentirosos. E se ontem tentei explorar algumas das motivações que levaram ao ataque americano na Síria, naturalmente com a informação disponível, hoje importa perceber os efeitos e as incógnitas dessa ação.

A primeira foi imediata e de consumo interno: várias figuras de primeiro plano democrata e a esmagadora maioria dos críticos de Trump passaram a elogiar o seu temperamento, a sua frieza e o imperativo moral da sua opção. Neste sentido, o ataque presidencializou Trump pela primeira vez aos olhos dos seus detratores. O efeito lógico desta quase unanimidade é tirar o foco mediático das trapalhadas sucessivas da administração e, sobretudo, da investigação que sobre ela pende no Congresso por via do suposto conluio com os homens de Putin. Se o objetivo de Trump era este, conseguiu-o. A dúvida é por quanto tempo.

Para que esta estratégia dure, a frente síria tem de ser alimentada. Com as devidas distâncias, fazer o que Bill Clinton fez durante o affair Lewinsky, quando bombardeou o regime iraquiano sem, no entanto, depor Saddam Hussein. A principal incógnita, se este for o caminho, está em perceber os moldes desse percurso. À partida, o ataque americano não terá grande repercussão em Assad, no sentido em que não é de esperar que desemboque numa mudança de regime como a que aconteceu na Líbia. Na altura, se estão recordados, a argumentação de Obama centrou-se na necessidade de travar uma sangria humanitária, e para isso recorreu ao Conselho de Segurança e à NATO para, "liderando do banco traseiro", acabar por eliminar Kadhafi e, objetivamente, mergulhar o país numa guerra civil. Até porque em Washington praticamente toda a gente está ciente de que a grande lição do pós-11 de Setembro é a de que o vácuo de poder tem sido um pote de mel para os terroristas transnacionais, e se há hoje um íman de uma jihad global, ele é a Síria. De resto, o pré-aviso feito a Moscovo e, indiretamente, a Damasco acomoda o raciocínio: ninguém avisa o inimigo se o quiser deitar abaixo.

Além disso, a destruição da base síria não pode ser considerada um sucesso militar, dado que vinte e quatro horas depois já estava a ser utilizada pelo regime para operações aéreas em Homs. Neste sentido, os mísseis Tomahawk apenas sinalizaram uma posição de força da administração, não fazem parte do início de uma estratégia musculada e continuada para alterar o rumo da guerra civil síria ou mesmo os equilíbrios do Médio Oriente. Rex Tillerson, o secretário de Estado norte-americano, vai nesta semana a Moscovo assegurar que a administração não atropelará a esfera de influência russa na Síria.

A ser assim, tal não implica que o ataque americano não tenha efeitos noutras potências regionais envolvidas na Síria. Se há efeito estratégico da decisão de Trump, ele passa por motivar e acomodar a postura daqueles que querem forçosamente derrubar Assad, como a Turquia, a Arábia Saudita e as pequenas monarquias do Golfo. O que Trump lhes diz é que está disponível para usar a força unilateralmente para causar mossa no regime, e que mesmo não passando de um leque de ataques cirúrgicos contra alvos militares, há um caminho que as potências sunitas podem seguir: continuar a alimentar a guerrilha anti-Assad, necessariamente anticurda ao longo da longa fronteira turca, mas sem quaisquer garantias de sucesso contra o que ainda resta do ISIS e da Frente al-Nusra.

O que isto significa é que Trump não tem a mínima estratégia para a Síria, não está minimamente preocupado com um quadro de apaziguamento no terreno, nem está com vontade de envolver capital político numa ronda negocial capaz de sentar Riade e Teerão à mesa. Se o desejo era regressar ao Médio Oriente com força intermediadora decisiva num xadrez tão impossível como o sírio, então a melhor forma não poderia passar por hostilizar uma parte, dar cobertura total a outra, incendiar a rebelião sunita e desproteger os curdos. Além do mais, as centenas de tropas especiais americanas que estão na Síria há pelo menos três anos ficaram agora um pouco mais expostas: se já estavam no meio da guerra civil e da luta anti-ISIS, passaram a estar também na mira de uma hipotética retaliação do regime sírio, do Hezbollah ou das tropas iranianas, o principal sustentáculo de Assad no terreno. Não quer dizer que isto aconteça, apenas que passa a ser uma hipótese mais entre tantas outras.

Por fim, há um efeito tendencialmente positivo na decisão de Trump, que é obrigar a Rússia a definir se quer continuar a dar retaguarda a ataques químicos altamente mediatizados ou se está na disposição de deixar cair Assad sem com isso perder influência sobre o regime. Esse facto poderia dar algum oxigénio a novas negociações e permitir a Moscovo fugir um pouco à raiva islâmica que a cerca no Cáucaso e na Ásia Central. O recente ataque de um usbeque em São Petersburgo e o poderoso contingente checheno do ISIS são inquietações permanentes no Kremlin. Trump pode ter dado uma boa ajuda nessa terapia.

 

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